Uma entrevista aos sábados
Meus pais sempre lembram disso, desde menino – uma certa desobediência em relação àquilo que era norma. Começa pelo meu próprio nome. Nasci António e, quando tinha dois anos e meio, decidi que queria me chamar Mia, pela relação de afeto que tinha com os gatos. Eu pensava que era um deles (risos). Mais tarde, a poesia foi uma escola de desobediência, de transgressão. E havia uma outra condição: o português de Moçambique, sendo o mesmo do de Portugal, não fala àquela cultura. Senti desde sempre a necessidade de desarranjar aquela norma gramatical, para deixar passar aquilo que era a luz de Moçambique, uma cultura de raiz africana. A descoberta dos escritores brasileiros foi uma felicidade imensa para mim, pois eles já estavam fazendo isso: usando a língua portuguesa, mas com uma outra marca cultural.
Não faço guerra contra a reforma, mas acho absolutamente absurdo o fundamento da necessidade de fazê-la. Evidente que é uma coisa convencional, não vai mudar a fundo as coisas, mas as implicações que isso tem do ponto de vista econômico acabam sempre por sobrar para os países mais pobres. Com esse dinheiro pode se fazer coisas mais importantes como, por exemplo, ampliar o conhecimento que temos uns dos outros. Circulo por São Paulo e grande parte das pessoas nem sabe o que é Moçambique. Nunca tive dificuldade em ler livros escritos na grafia brasileira; muito pelo contrário, me satisfaz muito haver essa diferença. No fundo, há uma familiaridade e uma estranheza que são importantes de estar registradas. Acho que a reforma não faz sentido, não subscrevo.
É preciso entender que os meninos estão deixando de ler os livros porque estão deixando de ler o mundo, de ser capaz de ler os outros, de ler a vida. Estão perdendo a disponibilidade de estar aberto aos demais, estar atentos às vozes, saber escutar. Há toda uma pedagogia que é preciso ser feita no conjunto. Não se pode isolar o livro e torná-lo como se fosse bandeira única desta luta. Uma coisa que aprendo na África é esta habilidade de se contar histórias e fazer com que o livro seja uma maneira de estimular, que os meninos não sejam só consumidores de história, mas também produtores de história. Quem não sabe contar uma história é pobre de alguma maneira.
Há um verso de um poeta moçambicano da Frelimo que ilustra isso muito bem. “Não basta que seja pura e justa a nossa causa; é preciso que a pureza e a justiça existam dentro de nós.” Faltou isso em muitos dirigentes políticos. Por outro lado, também é verdade que quem está no poder tem que entrar numa lógica de gestão, na qual é muito difícil perceber onde está o limite entre a traição do princípio e o momento de adaptação ao mundo real. Isso é muito difícil de gerir. Vivi esse processo porque eu era da Frelimo, da oposição, e pensava que a conquista do poder seria o fim do poder – no sentido que todos teriam o poder.
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Um senhor escritor. Quem ainda não leu, pode começar. É uma excelente sugestão.
Meu!
Ele coloca tantos assuntos que fica meio difícil comentar:
1- Ex colônias de Portugal e similaridades;
2- Reforma gramatical;
3- Falta de leitura;
4- Insensibilidade do homem atualmente;
5- Justiça;
6- Política…
Tudo junto, amarrando um assunto no outro, ele é bom, idéias muito bem amarradas.
:-)
Taí um cara porreta esse Mia Couto.
Não o conhecia, mas a primeira impressão foi ótima.
Também acho essa tal de uniformização da linguagem uma pura bobagem e chilique de moda.
Vamos viver as nossas diferenças e respeitá-las, esse é que é o “espírito da coisa.”
mas me parece um tanto ingenua sua utopia sobre poder….
Bem, pra quem ainda não leu nada dele, sugiro começar pelo “Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra”.
Algo como se misturássemos o GG Marques com o Jorge Amado e o Érico Veríssmo (em Incidente em Antares) com pitadas de Guimarães Rosa. Vale muito à pena. Aconselho.
Pax,
se o homem é mesmo uma mistura de todas essas “feras” que você citou, fiquei com uma impressão melhor ainda.
Dom, leia esse livro. Você merece. Depois me conta.
Que lindo texto! Vale a pena reproduzir pros meninos, que são bem menos refratários, ainda que exista gente demonizando os coitadinhos, que sâo ótimos! :)
Agora entendi a referência ao Mia Couto no post das 5 coisas sobre o Weblog! É só ficar longe umas horas e pronto, perde-se o bonde!
Recomendo vivamente outros livros dele, além do que foi mencionado no outro post: “O Outro Pé da Sereia” e “Terra Sonâmbula”.
Quanto a alguns dos temas da entrevista, começo com a alegria que é ver as desconstruções que ele faz, que soam como música aos ouvidos. Parecem tão naturais que é como se todos falassem assim, e os que não o fazem, deveriam!
[A propósito da correção ortográfica]
Anacrônico. É a pecha que me aguarda. E já me antevejo vivendo à margem, na companhia dos que resistirem comigo.
Desmilingüir-me de saudades? Dispenso! Prefiro manter-me rijo, tão inteiro quanto possível. E quando for chegada a hora, assumirei esse meu dito anacronismo, permanecendo datado, local — e a globalização que não me importune.
Sim, arcarei com as conseqüências. Agüentarei qualquer ignomínia. E se for necessário, passarei a freqüentar os bas-fonds, aqueles onde só restará a escória. (E serei um com ela.) Delinqüirei, vou logo avisando. E não me importo se o que pretendo é inexeqüível, ou se sôo ridículo e grandiloqüente.
Inconseqüência? Pode ser. Mas creiam, estou tranqüilo. E aos que quiserem me fazer companhia nessa empreitada, fiquem seguros: alcagüetados, garanto que não serão.
No fundo, só faço advogar pela eqüidade perdida. E se a vontade de argüir-me falar alto, sintam-se à vontade. (Pouco adiantará.) Podem mesmo pedir que eu pare com esse furdunço, dizer que isso não passa de um qüiproquó. E na seqüência, podem até querer interditar-me. (Nesse caso, não adiantará mesmo é de nada.)
Mas paro aqui com tanta obliqüidade, apenas para deixar claro, pela última vez: mesmo que me proíbam de escrever, do meu velho e bom trema, a mão eu nunca abrirei!
Sensacional, Ricardo Cabral, sensacional !
Ricardo,
Melhor perder o trema do que cultivar o gerundismo. O português globalizado não é de todo má idéia, me atrevo a dizer que será um português fortalecido.
Viva a globalização! :P
Pax, fico contente que gostou. E o título que eu tinha dado esqueci de escrever: Umlaut, que vem a ser o tal do “trema”… em alemão.
André, trata-se de uma brincadeira, porque adoro o trema. Quando não o vejo, acabo “lendo” coisas como frekência, consekência, inexekível… Eca! E sentirei saudades do acento circunflexo, que gerará dúvidas na moçada, creia! Já em relação ao gerundismo, cerro fileiras contigo. Ô excrescência!
E por último, sugiro mesmo a leitura do Mia Couto, ótima referência posta aqui pelo PD. Não leia muitos livros seguidos, pois chega uma hora em que o estilo cansa. Mas é uma escrita poética, bem-humorada e que passeia por uma África que nos escapa (ao menos a mim).
Abraços globalizados (mas sem deixarem de ser idiossincráticos)