O Irã gay

Irã · Islã · Sexo · 25/09/2007 - 12h25 - 76 Comentários

Falando aos alunos da Universidade Columbia, em Nova York, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad declarou que, em seu país, não há gays. ‘Não imagino quem possa ter-lhes dito isto’, foi dizendo o bom presidente, ‘não temos deste fenômeno’.

Que há gays, no Irã, evidentemente os há. Em julho de 2005, dois adolescentes foram enforcados por terem transado – um tinha menos de 18 anos. ‘Todo jovem o faz’, um deles declarou. ‘Não sabíamos que havia pena de morte.’ No interior do país, as mulheres usam burqas. O único acesso que um adolescente tem ao sexo oposto são mãe e irmãs. Num cenário assim, não é de todo improvável que a exploração homossexual seja de fato comum na juventude. Na Arábia Saudita é considerado normal para um homem mais velho pegar um rapaz imberbe como amante.

Brian Whitaker, ex-editor de Oriente Médio do Guardian britânico e autor de Unspeakable love: gay and lesbian life in the Middle East – Amor não declarado, a vida de gays e lésbicas no Oriente Médio – escreve sobre o assunto, hoje. Ele lembra que a poesia persa já há muitos séculos se dedica também a temas homossexuais e que, como em todo país da região, pelo menos uma cidade tem fama de gay – o equivalente local a Campinas ou Pelotas. No caso do Irã, é Qazvin, onde há 600 anos viveu o poeta Ubayd Zakani, espécie de Bocage persa, conhecido pelas descrições satíricas e homoeróticas da sociedade.

A forca não é a única pena possível. A chibata é uma alternativa quando não há provas de que houve relação sexual. Há pelo menos uma entidade que luta pelos direitos gays no país – trata-se da Iranian Queer Organization, IRQO. Mas, evidentemente, quem vive no Irã tem medo de se organizar:

Os gays iranianos se dividem em dois grupos. Uns acreditam que organização e resistência ativa da comunidade GLBT provocaria uma forte reação governamental, que poderia atiçar uma contra-reação internacional contra o país. Ninguém quer mais uma desculpa para que venha uma reação militar internacional contra o regime iraniano por conta de violações de direitos humanos. Outros querem lutar por seus direitos civis plenos. [...]

Nos últimos meses, ativistas de direitos femininos foram presas violentamente. A IRQO encoraja a comunidade gay e quem a apóia a iniciar petições que levem a apoio popular.

Os gays iranianos que temem se organizar porque isto provocaria uma reação do governo que poderia levar ao ataque do país é provavelmente infundada. A administração de Ahmadinejad e a de George W. Bush têm lá seus pontos comuns. Por exemplo, o de serem co-signatários de um pedido que nega à ONU o direito de financiar organizações que lutem pelos direitos de gays e lésbicas onde são oprimidos.

Exilado momentaneamente na Turquia, Amir, um jovem gay de 22 anos que busca asilo político fora do Oriente Médio, conta sua história de prisão após uma festa:

Os policiais nos vendaram os olhos, jogaram-nos numa van e nos levaram para o Ministério do Interior. Éramos todos conhecidos por nossos nomes. Fui o terceiro a ser interrogado. Os policiais tinham vídeos feitos da festa, em um dos quais eu lia um poema. Eles mandaram que eu o recitasse novamente. Que poema, perguntei. Aí me bateram no rosto, na cabeça. Tentei negar que era gay, então eles me tiraram os sapatos e começaram a bater com cabos de metal nas solas dos pés, provocando uma dor lancinante. Eu ainda estava vendado. Como encontraram consolos na casa da festa, me bateram com eles, enfiaram-nos na minha boca. Quando contei que meu pai era um mártir da Guerra Irã-Iraque, eles bateram ainda mais duro. Tiraram de mim o cartão que me garantia benefícios para filhos de mártires e disseram que informariam à universidade onde estudo de minhas atividades.

O computador do rapaz foi confiscado e as imagens de homens nus que ele tinha foram apresentadas a sua mãe. Durante o julgamento, ameaçaram-no de leva-lo a um médico. É o maior terror para um rapaz gay. Se o médico der um atestado garantindo que alguém já foi penetrado, vem a condenação à morte. Liberado após tortura e multa, Amir conseguiu fugir.

Os alunos de Colúmbia riram quando Ahmadinejad explicou ‘que este fenômeno’ não existia no Irã. Evidentemente, a declaração é tão absurda que faz dele um líder caricaturalmente fanático. Mas, para os homossexuais iranianos, não há graça nenhuma.

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