O Rio de Janeiro como ele é

Brasil · 24/09/2007 - 05h52 - 76 Comentários

O Rio está pobre – e só a distância nos faz percebê-lo. Comparado com São Paulo, o Rio tem suas ruas mal pavimentadas, lixo espalhado, o calçamento com ranhuras, desigual. Mesmo o Baixo Leblon, talvez o bairro mais rico da cidade, é pobre e feio quando comparado a seus equivalentes paulistanos, Higienópolis e Jardins.

Isso não é apenas uma questão de dinheiro: é também de cuidado. O governo carioca é muito descuidado com sua cidade; o carioca também.

Seguindo a história, o Rio tem duas cidades irmãs. São Paulo é uma delas. Foram paulistas que fundaram o Rio de Janeiro porque primeiro os franceses, depois os índios tupinambás, na Guanabara, eram uma séria ameaça para a segurança de Piratininga. Para que São Paulo pudesse viver, o Rio teve de nascer.

A segunda cidade-irmã é Buenos Aires. Durante todo o século 16 e o 17, o sudeste brasileiro foi muito, muito pobre. A riqueza estava no nordeste produtor de açúcar. As terras do sudeste eram poucas e de má qualidade para cana. Então o Rio sustentou sua economia com tráfico negreiro na rota Angola, Rio, Peabiru abaixo Buenos Aires e, Prata acima, Potosí. As riquíssimas minas bolivianas, que sustentaram por um século o incrível Império Espanhol, foram exploradas com mão-de-obra angolana negociada por cariocas e portenhos. No Rio e em Buenos Aires viveram as mesmas famílias, os mesmos sócios e, tocando um mesmo negócio em comum, conseguiram sobreviver a seus dois primeiros séculos de vida.

As duas cidades irmãs do Rio são infinitamente mais bem cuidadas que ele próprio. Não à toa, talvez. O Rio é bonito demais e a geografia de Sampa e Buenos Aires nada tem que se destaque. Precisam cuidar daquilo que a natureza não ajudou a fazer. Talvez.

Há vários anos, num passo muito lento, escrevo uma história do Rio. Começa com a chegada dos franceses, termina com a chegada de dom João 6o. Falta só o século 18 para pôr no papel. É preciso coragem: escrever dá muito trabalho. Mas o prazer de terminar cada capítulo, depois de muita e muita pesquisa, sempre compensa. Ultimamente, tenho tido vontade de ver este livro todo pronto.

Cá está o primeiro capítulo – chama-se A espera angustiada (PDF). É a história de uma única batalha.

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