Os palestinos de Ruweished vêm para o Brasil

Brasil · Iraque · Israel e Palestina · 21/09/2007 - 10h43 - 102 Comentários

No Campo de Ruweished
Mais fotos: 01 | 02 | 03 | 04 | 05 | 06 | 07Divulgação ACNUR / S.Malkawi

Estas aí são as últimas fotos do Campo de Refugiados de Ruweished, na Jordânia. O lugar está sendo desmontado, já, e os últimos palestinos que lá viviam vêm para o Brasil. São 96. Esta conclusão vem graças a Karmen Sakhr uma libanesa-brasileira que se criou na França e, atualmente, mora na Jordânia. Funcionária da ONU, ela acompanha o Campo desde que ele se criou, após a invasão do Iraque. Estes palestinos viviam em Bagdá.Há uns meses, a Trip publicou uma reportagem sobre eles, assinada por Marina Gomara, minha mulher. É graças a ela que o Weblog teve acesso a estas imagens do campo sendo desmontado. Infelizmente, o texto não está disponível no site. Mas cá vai um naco:

‘A primeira coisa que vou fazer quando chegar é beijar o chão do Brasil’, diz Abu Hanan. ‘Não quero voltar nunca mais para um país árabe.’ Ele tem 60 anos e vem com outros 95 palestinos. Foram acolhidos pelo governo brasileiro.

Nos últimos quatro anos, o grupo viveu no campo de refugiados de Ruweished, no deserto da Jordânia. Região conhecida como Terra de ninguém. Viveram enclausurados. Não era permitido entrar nem sair do acampamento sem autorização do Ministério do Interior. Quando alguém ficava doente, tinha de ser levado com escolta policial ao hospital mais próximo, três horas e meia distante. E só nos casos de emergência. [...]

Aberto desde 2003, com a invasão americana no Iraque, o campo chegou a ter 700 pessoas. Dos quase 400 palestinos que estiveram ali, grande parte recebeu refúgio na Suécia, na Irlanda e no Canadá. Outros foram autorizados a morar em cidades da Jordânia por serem casados com jordanianas. Mas estes não têm direito a cidadania, trabalho ou educação.

Abu Hanan é casado com uma iraquiana. Tem quatro filhos, duas do segundo casamento. É diretor de teatro e compositor. Morou em Bagdá desde criança. Nasceu em Jaffa – hoje Israel – em 1947. Mas foi expulso junto com os pais um ano depois, com a formação do Estado israelense. Na época, cerca de 800 mil palestinos fugiram de suas casas. Foram para Jordânia, Síria, Líbano, Iraque, Egito.

O Brasil tem, ao todo, 3.400 refugiados políticos. É um número absurdo de pequeno, dado o tamanho da terra e tradição de receber bem imigrantes. Abu Hanan quer aprender samba – os palestinos todos que vêm querem virar brasileiros. Querem casa e paz. Compõem um grupo heterogêneo, solteiros e famílias, gente ainda estudando e gente com PhD. No geral, todos têm boa educação formal.

Por aqui, serão acompanhados pela ACNUR, Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados – UNHCR na sigla em inglês –, órgão da ONU, e pelo Itamaraty. Começarão com direitos de cidadania um quê limitados mas, ao fim do processo de adaptação, serão cidadãos plenos. As notícias que chegam do campo é de que as crianças, principalmente, estão felizes. Circulavam pelo campo com a camisa da Seleção. Os refugiados irão morar em cidades no interior do Rio Grande do Sul e de São Paulo.

Oferecer refúgio a quem foge de guerras, genocídio, limpeza étnica ou seja que tragédia for é uma obrigação de cidadania internacional. Não faz sentido um país querer uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU e não tomar parte ativa da política mundial.

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