Tropa de Elite, pirataria e quem financia o tráfico

Brasil · Cinema · Tecnologia · 10/09/2007 - 11h46 - 193 Comentários

Tropa de Elite, o filme que quase todo carioca já viu embora não tenha estreado, levanta duas questões interessantes e distintas.

A primeira é a respeito de ‘pirataria’. A palavra vai entre aspas por um motivo. É pirataria do ponto de vista legal, certamente. E o crime de revenda deste material é indiscutivelmente grave. Mas há um porém: no mundo da digitalização, o vazamento de filmes e CDs será cada vez mais comum. É inevitável – mas este é o assunto da coluna no Estadão, hoje.

A segunda questão é a própria mensagem do filme. Tropa de Elite é bom – nada a ver com Cidade de Deus e, no entanto, um filmaço que conta uma história com a qual cariocas estão habituados de um ponto de vista novo: o da polícia. Mais especificamente, do BOPE, o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, incorruptível e violento.

O BOPE ficou conhecido pela população carioca quando apareceu na desastrada operação em torno do seqüestro do ônibus 174, há uns seis anos. Um dos roteiristas do filme, o ex-capitão do batalhão Rodrigo Pimentel, foi personagem do (excelente) documentário Notícias de uma guerra particular, de João Moreira Salles e, logo que deixou a polícia, de uma reportagem no falecido NO., assinada por Jan Theophilo. Desde então, Pimentel revela os bastidores da polícia. (O link para a reportagem não existe, mas cá está um artigo no qual Luiz Eduardo Soares, ex-secretário de Segurança, o comenta.)

Em Tropa de Elite há uma acusação explícita que a classe média carioca, principalmente os jovens universitários – e fui um destes um dia –, não gosta de ouvir. Eles financiam o tráfico. Numa das cenas, o BOPE invade uma favela, troca tiros com traficantes, um dos presos é um destes estudantes. Apontando para um dos mortos, o personagem de Wagner Moura – a cara, o jeito do capitão Rodrigo por inteiro – lhe pergunta “quem matou esse aqui?” É uma cena violenta, o rapaz está apavorado: ‘um de vocês’, ele responde. “Foi você”, retruca o capitão.

O cocainômano tem um quê de cínico. Já o bom maconheiro, sujeito de paz, imerso numa cultura própria e criativa, terá muitos argumentos. É o Estado é que oprime ao proibir-lhe o consumo da erva. E ele terá total razão: o Estado cerceia sua liberdade de consumir uma planta que faz parte da cultura humana há tantos milênios, talvez, quanto existimos como espécie. A guerra contra as drogas, além do mais, é má política. Não funciona.

Acontece que são a política e a lei vigentes. E polícia não tem que discutir lei, tem que fazê-la cumprir.

Há tráfico e o tráfico é violento. O tráfico oprime a população das favelas. Mas o tráfico não brota do nada, diz a visão da polícia retratada pelo filme. É o dinheiro do maconheiro gente boa, da paz, que financia as armas e as balas e os estupros e o medo das favelas. O Estado não devia oprimir mas fingir que não se faz parte da equação que gera violência é um exercício de abstração.

Noutra cena do filme, numa sala de aula da PUC-Rio, os jovens estudantes reclamam da brutalidade policial. Toda ela é verdadeira e o filme não a esconde. Reclamam da brutalidade contra os pobres, nas favelas, e, nas blitze, contra a jovem classe média. Enfrentei algumas blitze barra pesadas quando estudante em férias. São violentas e ameaçadoras e, embora nenhum tiro jamais seja disparado, sempre parecem uma tentativa de achaque. Plantarão algo, se é que não encontram o flagrante, e vão cobrar caro para deixar para lá.

Mas a polícia é o inimigo? A violência piorou um bocado nos últimos anos e a incompetência (para dizer o mínimo) do governo dos Garotinho contribuiu.

Não é uma situação de solução fácil. O filme lembra à classe média que ela não é inocente. Mas a classe média não é a única a consumir substâncias ilícitas. Também os há consumidores, corruptores, corrompidos dentre aquilo que nos EUA chamam de powers that be: na estrutura dos três poderes da República, nos três níveis de governo da Federação, e convém não dizer mais porque, com mais, identificam-se uns poucos e o processo vem.

O filme conta uma história no microcosmo e sua mensagem é o ponto de vista do policial na rua. É um ponto de vista bem-vindo pois raramente ele tem a chance de se apresentar. Para o policial que arrisca sua vida em operações arriscadas para garantir a execução da lei, é o garotão subindo o morro quem mantém o ciclo vicioso.

Só que não é. Um paralelo: na era digital, evitar que um filme destes se espalhe qual vírus, na Internet, é impossível. Pode ser ilegal, mas leis não existem no vácuo, elas regem um ambiente dinâmico que é o da cultura humana. É inerente à existência humana que informação considerada de valor seja espalhada. Se o meio digital facilita ao máximo esta transferência de informação, ela acontecerá. No fim, por ser inútil empregá-la, a lei terminará obsoleta e novos modelos de negócio surgirão para sustentar a produção cultural. Como, aliás, sempre aconteceu.

Da mesma forma, é inerente à condição de ser humano a busca pela transcendência, pela alteração de percepção, pela abertura de sentidos que a intoxicação possibilita. Pode ser o barato do atleta que, no limite do seu esforço, modifica a bioquímica cerebral, produzindo foco extremo numa única atividade e uma sensação nada vaga de prazer. (Quem corre a conhece.) Pode ser o chope, a leve tontura, o livrar-se de inibições. Ou a maconha. Ou a cocaína. LSD. Opiácios.

Não é porque a lei proíbe o consumo de algumas substâncias que alteram a percepção que ela será eficaz. Tais substâncias continuarão a ser consumidas.

O que realmente cria a violência é a lei.

A partir do momento em que o consumidor não prejudica a ninguém além dele próprio – quando isto acontece – não faz sentido proibir algo que é inevitável, ainda mais quando a proibição gera custos altíssimos na construção de um aparelho repressor ineficiente.

Mas não é possível ser cínico e racional em tudo, pôr a culpa na lei e lavar as mãos na seqüência. Cada beque fumado que teve origem na estrutura do tráfico tem um custo em vidas humanas. Fume-o quem quiser – a sensação é agradável. Mas fingir que o sistema em volta não existe é imperdoável, um exercício de alienação ou de cinismo. Se não corta o barato da intoxicação, devia. Não querer fazer parte deste ciclo vicioso é uma atitude de protesto.

Tropa de Elite, que se repita: é um filmaço. Alguns dos prezados devem tê-lo baixado e visto, já. Então fica aqui um convite para quem o fez: estréia este mês, é hora de rever no cinema levando mais alguém. Paga quem o produziu e espalha a discussão. O Brasil carece de discussão, de enfrentar temas difíceis.

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