Os principais mosteiros de Myanmar foram trancados, os monges lá dentro. Estão proibidos de sair. Não aconteceu sem que, antes, o exército invadisse violentamente alguns deles. O governo chinês interveio para que a junta que comanda o país permitisse a entrada do enviado especial da ONU, Ibrahim Gambari. O diplomata chega hoje.
Talvez por este motivo, a Internet foi parcialmente reconectada e o toque de recolher que estava em vigor durante as noites foi suspenso. Ainda assim, pessoas como o ator Za Ga Na, uma das estrelas do país que se juntou aos monges, foi preso ontem à noite. Há notícias de pessoas sendo presas por toda parte.
Pode ser um exercício bastante perigoso. A 22a Divisão do Exército está de volta à capital, Rangum. Em geral, seu serviço é cuidar de grupos rebeldes na fronteira com a Tailândia. Mas, em 1988, foi ela a responsável pela carnificina que encerrou os protestos pela democracia.
A junta militar é composta por homens velhos que vivem num país isolado. Nos últimos anos, vem conseguindo, por conta de seu estoque de petróleo e gás natural, se relacionar bem com dois poderosos vizinhos: Índia e China. Myanmar não é capacho de nenhum dos dois porque os generais sempre foram hábeis o suficiente para aumentar as vendas de combustível a preços camaradas para um quando o outro começava a estrilar.
O mundo mudou sem que os generais tenham o percebido. Este ano, os protestos coincidiram com a abertura do ano na ONU, com chefes de Estado reunidos. Virou o assunto dos circuitos diplomáticos. Não bastasse, há Internet, há canais 24 horas de notícias de rádio e tevê, agências noticiosas ultra-rápidas. Nada disso existia em 1988. Uma carnificina em Myanmar será assistida ao vivo pelo mundo.
Os velhos generais podem não ter percebido – mas chineses e indianos sabem bem o jogo internacional contemporâneo. Para a China, é o pior dos problemas. Estabilidade no país vizinho só virá com a Junta militar fora. Mas ver a Junta derrubada por um movimento de povo na rua é um cenário igualmente desagradável para Beijing. Traz maus agouros.
Por enquanto, a Índia está evitando se manifestar.
Myanmar mal tem uma classe média. É um país isolado do comércio internacional. Isto quer dizer que não há uma elite cujos interesses dependam das boas relações com estrangeiros. Depois de tantas décadas, sua elite é o Exército. Enquanto os generais da Junta mantiverem o Exército fiel, bem pago, os principais líderes constantemente promovidos, têm tudo para garantir-lhe a fidelidade.
O problema é que, para manterem-se no poder, terão de gerenciar bem a fidelidade deste Exército de um lado enquanto dominam um levante popular sem brutalidade. Isto pode ser construído com medo. Se inspirarem terror na população, ela não vai à rua. O problema da fórmula é que ela vem sendo aplicada há anos. Se tiver esgotado, não há o que fazer.
A ponte com a oposição é repentinamente importante. Medo tem mão dupla: desperta ódio. E ódio popular inspira medo aos ditadores e suas famílias. Ninguém quer terminar pendurado como Mussolini, esmigalhado como Ceaucescu. Em um ponto, se mantiverem o contato com a oposição, bem costurado por diplomatas chineses, poderão negociar uma rendição.
As ruas estão tensas. Algo acontecerá. Ninguém sabe o quê.
Há alguns focos de tensão neste Weblog. Pessoalmente, acho natural que a questão do ódio racial deixe muitos com os nervos à flor da pele. Ódio entre grupos humanos – sejam eles definidos pela religião, pela língua, pela etnia ou por qualquer outro aspecto de suas culturas – foi (e ainda é) a causa dos piores crimes praticados por nossa espécie.
Aí de presto na discussão um me acusa de favorecer um grupo; o segundo acusa o terceiro de tolerância excessiva; o quarto vem e diz que o ódio do grupo azul é na verdade menor do que o sofrido pelo verde.
Só que esse ódio é todo igual.
Hora de esfriar os ânimos – discutir nosso lado mais negro sem nos acerbarmos é difícil, mesmo. Não custa lembrar a todos que, para alguns dentre nós, a experiência do ódio racial não vem de livros; vêm das histórias que o pai contava de sua infância em casa. Ainda assim, isto não é desculpa para que ninguém perca a elegância.
Tópico 2.
Off topics estão passando do limite. É injusto dado que a política recente do Weblog provê Open threads suficientes para a discussão de qualquer assunto.
Os últimos tempos me forçam a mudar as regras do Weblog. Ponham o link para textos que queiram recomendar aos outros. Toda citação de outros sites que passe do tamanho que eu considerar razoável – tenho em mente um parágrafo, mais ou menos quatro ou cinco frases – será eliminada independentemente de seu conteúdo.
Tópico 3.
Os dois itens anteriores se referem a civilidade e elegância. A maioria das pessoas aqui sabem portar-se em comunidade. Sabem que há uma diferença entre opinar e doutrinar. Sabem que este não é um jogo de o quanto vou conseguir irritar todos ao meu redor.
Manter o Weblog dá trabalho – e não é pouco trabalho. É um trabalho do qual gosto por dois motivos. O primeiro é o que aprendo e o quanto me mantenho informado enquanto busco o que publicar; o segundo e igualmente importante é o debate. É outro aprendizado. O debate é com vocês – e o prazer do debate, de ouvir, de se surpreender com novos ângulos apresentados, de aprender com novas informações, de ser surpreendido com um ponto de vista antagônico e pensar como se deve retrucar é um prazer muito sofisticado.
Alguns dos que mais enchem a boca para falar em democracia, por aqui e pelo mundo, não entendem esta forma de prazer. Acham que democracia é tolerar quem pensa diferente. No fundo, são ditadores. Estes não entenderam nada. Azar o deles.
Ou azar o meu quando começa a dar trabalho demais.
Tópico 4.
Este Weblog vai bem. Entre 29 de agosto e 28 de setembro, recebeu 51.748 visitas, dentre as quais 53% foram visitas de gente nova. Quase 70% de quem vem pela primeira vez retorna. O visitante passa uma média de 4 minutos no site. No período, 117.960 páginas foram visitadas. São todos números superiores à média do Weblog em NoMínimo. Os números do Technorati, que mede os links entre blogs, o confirmam. No último ano de NoMínimo, o Weblog foi citado por 162 blogs diferentes. De junho para cá, foi citado por 183.
Não são, certamente, números grandiosos quando comparados a blogs constantemente presentes nas primeiras páginas dos portais. E há, sim, uns dez blogs independentes brasileiros com números maiores do que estes.
O forte do Weblog está noutro ponto: a comunidade. Há vida aqui. Comentários, gente se expondo, gente lendo. Vida mesmo: não é um pequeno grupo que reforça as idéias uns dos outros. Discorda-se. Mas a conversa segue. A comunidade é muito maior do que os comentaristas. Muitos de vocês se surpreenderiam em saber que há torcidas. Muitos que só participam via email vêm aqui ao Weblog diariamente, mais de uma vez por dia até, para ler o que disseram aqueles com quem sempre concordam ou o que aprontaram os de quem sempre discordam.
São mais de 15 anos trabalhando em comunidades virtuais. Eu gosto – é o barato da Internet.
Tópico último.
O que nos traz à questão do trabalho. Fazer o Weblog dá trabalho mas dá prazer. Se eu tiver que virar um censor constante de quem está tentando mudar o assunto onde não cabe, o prazer diminui e trabalho não remunerado sem prazer não tem graça alguma.
Os anúncios do Google renderam até hoje 60 dólares. O sistema de relacionamento com a Livraria Cultura, 25 reais. É um passatempo.
Há muitas maneiras de me remunerar pelo trabalho. Uma delas é mantendo o prazer do ambiente. Um bom botequim a gente até paga para freqüentar.
Outra é, na hora de comprar um livro pela Internet, cogitar fazê-lo seguindo um dos anúncios para a Livraria Cultura que estão sempre por aqui. Não custa um tostão a mais e pingam 4% deste lado.
Uma terceira forma é não deixar de clicar em qualquer anúncio do Google que possa interessar. O clique faz uns centavos de dólar pingarem.
Se eu enchesse de anúncios o espaço, aumentaria a renda. E sujaria o lugar também, tirando o prazer. Sem prazer não vale. Acho que o banner grande ali em cima e o pequeno, na área de comentários, dão uma média bacana. De repente porei um terceiro na barra lateral ou no pé – a ver.
Há uma quarta forma possível de colaboração. Boa parte do meu trabalho como jornalista é ler. Há uma lista reservada para minhas compras futuras na Amazon e outra na Livraria Cultura. Alguns de vocês me perguntaram se há alguma forma de fazer uma doação ao Weblog. Pois um livro cai bem.
Esta lista estará na terceira coluna do Weblog a partir de agora.
Meus pais sempre lembram disso, desde menino – uma certa desobediência em relação àquilo que era norma. Começa pelo meu próprio nome. Nasci António e, quando tinha dois anos e meio, decidi que queria me chamar Mia, pela relação de afeto que tinha com os gatos. Eu pensava que era um deles (risos). Mais tarde, a poesia foi uma escola de desobediência, de transgressão. E havia uma outra condição: o português de Moçambique, sendo o mesmo do de Portugal, não fala àquela cultura. Senti desde sempre a necessidade de desarranjar aquela norma gramatical, para deixar passar aquilo que era a luz de Moçambique, uma cultura de raiz africana. A descoberta dos escritores brasileiros foi uma felicidade imensa para mim, pois eles já estavam fazendo isso: usando a língua portuguesa, mas com uma outra marca cultural.
Não faço guerra contra a reforma, mas acho absolutamente absurdo o fundamento da necessidade de fazê-la. Evidente que é uma coisa convencional, não vai mudar a fundo as coisas, mas as implicações que isso tem do ponto de vista econômico acabam sempre por sobrar para os países mais pobres. Com esse dinheiro pode se fazer coisas mais importantes como, por exemplo, ampliar o conhecimento que temos uns dos outros. Circulo por São Paulo e grande parte das pessoas nem sabe o que é Moçambique. Nunca tive dificuldade em ler livros escritos na grafia brasileira; muito pelo contrário, me satisfaz muito haver essa diferença. No fundo, há uma familiaridade e uma estranheza que são importantes de estar registradas. Acho que a reforma não faz sentido, não subscrevo.
É preciso entender que os meninos estão deixando de ler os livros porque estão deixando de ler o mundo, de ser capaz de ler os outros, de ler a vida. Estão perdendo a disponibilidade de estar aberto aos demais, estar atentos às vozes, saber escutar. Há toda uma pedagogia que é preciso ser feita no conjunto. Não se pode isolar o livro e torná-lo como se fosse bandeira única desta luta. Uma coisa que aprendo na África é esta habilidade de se contar histórias e fazer com que o livro seja uma maneira de estimular, que os meninos não sejam só consumidores de história, mas também produtores de história. Quem não sabe contar uma história é pobre de alguma maneira.
Há um verso de um poeta moçambicano da Frelimo que ilustra isso muito bem. “Não basta que seja pura e justa a nossa causa; é preciso que a pureza e a justiça existam dentro de nós.” Faltou isso em muitos dirigentes políticos. Por outro lado, também é verdade que quem está no poder tem que entrar numa lógica de gestão, na qual é muito difícil perceber onde está o limite entre a traição do princípio e o momento de adaptação ao mundo real. Isso é muito difícil de gerir. Vivi esse processo porque eu era da Frelimo, da oposição, e pensava que a conquista do poder seria o fim do poder – no sentido que todos teriam o poder.
Entrei tarde na Revolução de Açafrão – e devo desculpas a vocês.
Tive uma colega birmanesa na escola, nos EUA, em 1990. Ela e a mãe estavam exiladas, não lembro se era o pai ou um tio que estava preso por conta do levante de 1988. O pouco que sabia sobre o país foi o que ouvi desta moça. Era muito tímida, muito calada, muito perdida e deslocada naquele mundão de opulência californiano. Era também uma belezura, mas não oferecia qualquer chance de proximidade. Parecia viver noutro mundo – e provavelmente vivia, mesmo. Muito elegante, mas isto só fui perceber anos depois. Para meus 15 anos, parecia apenas vestir-se de forma diferente.
Certa vez, fiz uma piada a respeito do budismo. Minha colega ficou horrorizada com minha falta de respeito. Coisa de lágrimas saltando aos olhos. Serviu como lição: as pessoas às vezes levam religião bem mais a sério do que eu jamais percebera.
É difícil cair de pára-quedas num assunto desconhecido, e conheço pouco aquele mundão da Ásia para lá da Índia, antes da China. Mas é exoticamente fascinante. Ho Hitke, birmanês exilado em Londres, está blogando as notícias que recebe. O opulento casamento da filha do general Than Shwe, líder da junta, está no YouTube. Divulgado no país, chocou a população em grande parte pobre.
Por fim, esta é Aung San Suu Kyi, a bem-humorada líder da oposição birmanesa:
O governo está tentando controlar o acesso à Internet no país. Sem cortar a telefonia, talvez seja impossível, embora possa dificultar. Há tentativas de iniciar diálogo com os líderes oposicionistas.A junta está preocupada.
Esta é a segunda mais longeva ditadura em curso no mundo. Só perde para a de Fidel Castro. A partir de agora, tentarei fazer um update diário. Há alguma história e personagens por revelar. Principalmente, há uma revolução popular em curso. Revoluções populares, a luta por liberdade, são sempre comoventes.
Há um site antisemita em circulação. Profundamente antisemita – coleciona todo e qualquer mito antisemita que jamais circulou pela humanidade. É um ninho de serpentes.Digite a palavra ‘jew’ no Google, ele é o segundo na lista de respostas. O motivo de o nome do site não ser citado neste post é simbólico: quanto mais as duas palavras de seu nome estiverem juntas na Internet, maior sua relevância perante o sistema de buscas. É também por isto que não vai, cá, um link para o site. Recomendo a mesma cautela – de não publicar nem o nome, nem o link, aos comentaristas.
Há uma trupe querendo tirar o site do ar. Sou, pessoalmente, contra a censura a qualquer espécie de informação, mesmo que falaciosa, racista, estimulante do ódio entre grupos humanos, perpetuadora de mitos que já foram responsáveis por mais de uma onda genocida no mundo. Informação deste tipo combate-se com informação de fato.
Mas, mesmo discordando, indico que há um caminho para quem quiser protestar e tirá-los da rede.
No último sábado, faz quase uma semana, um grupo de monges e religiosos recebeu autorização do governo para rezar perante a casa de Aung San Suu Kyi, a elegante e esbelta vencedora de um Nobel da Paz que, aos 62 anos, ainda lidera o movimento de oposição em Myanmar. A bela senhora pôs-se à varanda – sua primeira aparição pública nos últimos 4 anos de prisão domiciliar – e deslanchou o início de uma revolução.
A Economist, na capa de sua edição que saiu ontem, quinta-feira, a batiza de Saffron Revolution, a Revolução de Açafrão, referência ao condimento tão popular naquele naco da Ásia e à cor dos mantos dos monges budistas.
Myanmar é um país de médio porte com 677 km2 e uma população estimada de 49 milhões de habitantes. Tem belíssimas praias quase nunca freqüentadas por turistas estrangeiros. Seu povo, oriental, costuma ser esbelto como a senhora Suu Kyi, semelhante às gentes da vizinha Tailândia. No período colonial, os ingleses favoreceram a migração de indianos e chineses para, dissolvendo a população nativa, consegui-la subjugar com facilidade. A independência veio em 1948, no mesmo pacote que criou Índia e Paquistão, com a fundação da União da Birmânia, que reunia aquilo que eram uma série de reinos independentes antes do domínio britânico. U Thant, o fundador do país, foi Secretário Geral das Nações Unidas nos anos 1960 – mas seu país não permaneceu democrático por muito tempo. Em 1962, num Golpe de Estado, os militares assumiram o poder. Ainda estão lá.
Não é uma história pacífica. A primeira série massiva de protestos veio em 1974, durante o funeral de U Thant, quando Aung San Suu Kyi, sua ex-assistente, despontou-se como líder. Em 1988, foi a vez de milhares de estudantes tomarem as ruas da capital, Yangon, que culminou por derrubar o governo, substituído por outro grupo militar, em novo golpe. Apesar de prender a cúpula dos estudantes liderados por Min Ko Naing, os generais de então propuseram a realização de eleições livres para o parlamento. A junta que assumiu o poder tomou outra decisão: mudou o nome oficial do país, de Birmânia (Burma, em inglês) para Myanmar (alguns jornais brasileiros registram Myanmá).
As eleições de 1990 trouxeram a senhora Suu Kyi e sua Liga Nacional pela Democracia a 80% das cadeiras do Parlamento – mas isto não é coisa que perturbe ditadores. A Junta não reconheceu o resultado do pleito e assim ficou. É um país isolado internacionalmente, mas sustentado principalmente pela China, com que mantém amplos laços comerciais. No Conselho de Segurança da ONU, tem também o apoio russo. A participação chinesa é controversa. Por um lado, como é o caso da Coréia do Norte, os chineses, ao manter relações diplomáticas, podem interferir em picos de crise. Por outro, terminam por dar sustentabilidade a um cruel regime de exceção.
Em princípios de agosto, o governo de Myanmar aumentou – mais que dobrou – o preço do combustível no país. Como não há muitos detalhes a respeito da economia local – sustentada principalmente pela exportação de gás natural para a China – é difícil saber o porquê. Pesadamente subsidiado, o preço da gasolina ainda está bem abaixo dos padrões internacionais. É possível que o governo não tenha mais condições de sustentar o subsídio. Ou é possível que tenham usado a medida para disfarçar o fato de que a nova Constituição democrática prometida para por agora continuará atrasando. Com o aumento dos preços vieram os protestos comandados pelos líderes de 88, Min Ko Naing à frente. Já passaram 15 anos na cadeia – e já estão lá de volta.
Mas os protestos da geração de 1988 ganharam um repentino apoio dos monges. A Junta Militar comanda um exército de 400.000 homens – e é mais ou menos este o número de monges budistas que vivem no país. Os protestos de segunda-feira levaram 100.000 pessoas, monges à frente, para as ruas. A princípio, o governo permaneceu calado. Tinha esperanças, possivelmente, de que os protestos iniciais de pouca gente se desfizessem com a prisão das duas gerações de líderes – a senhora Suu Kyi de um lado, os velhos estudantes, do outro. Não adiantou.
Ontem, o exército foi para as ruas contra os manifestantes. Os números oficiais dão que 31 soldados se feriram contra 11 civis. Nove manifestantes morreram. Segundo Bob Davis, embaixador da Austrália no país, o número é muito maior. O blog especializado Burma Digest informa que 500 foram presos e que dúzias de monges foram mortos a tiros ou a pancada.
Houve uma carnificina.
De visita à Casa Branca, na qual discutiria com diplomatas alguns acordos, o ministro das relações exteriores chinês, Yang Jiechi, viu-se repentinamente convocado ao Salão Oval, onde teve de ouvir uma reprimenda do presidente George W. Bush. Os EUA querem que a China ponha seu peso para facilitar a transição da ditadura para a democracia na antiga Birmânia.
A princípio, não parece que acontecerá.
Há um momento em que revoluções simplesmente acontecem, mas cautela nas previsões não custa nada. Dois princípios de revolução já se deram. Mas neste encontro de duas gerações de revolucionários, no apoio dos monges, na fúria da população e na aparente crise econômica que o governo não está mais conseguindo controlar parece – apenas parece – que a Revolução de Açafrão está a caminho.
Isto ficará claro se, após a matança de ontem, nos próximos dias e semanas, os monges – e com eles, o povo –, persistirem tomando o caminho das ruas.
Se le vió, caminando entre fusiles
por una calle larga,
salir al campo frío,
aún con estrellas, de la madrugada.
Mataron a Federico
cuando la luz asomaba.
El pelotón de verdugos
no osó mirarle a la cara.
Todos cerraron los ojos;
rezaron: ¡ni Dios te salva!
Muerto cayó Federico
– sangre en la frente y plomo en las entrañas -.
…Que fue en Granada el crimen,
sabed - ¡pobre Granada!-, en su Granada!…
Bob Woodward é a estrela que todos lembram – mas, a seu lado, enquanto escrevia para o Washington Post as reportagens que trouxeram abaixo o governo Nixon, estava lá, sempre, Carl Bernstein. Os dois eram jovens repórteres investigativos. De passagem pelo Brasil, Bernstein deu algumas entrevistas.
Acho que as mentiras podem ser comparadas. O governo Bush foi catastrófico em vários sentidos para os EUA. O problema é que o sistema funcionou na era Nixon. Ele foi responsabilizado porque a imprensa fez seu trabalho, o Judiciário fez seu trabalho, o Congresso fez seu trabalho. Membros de ambos os partidos estavam interessados na verdade. Nada disso ocorreu na era Bush.
A imprensa fez sua parte?
A maior parte do que sabemos sobre as reais políticas da administração Bush – talvez com atraso, não na preparação para a guerra, mas desde que começamos a experimentar dificuldades no Iraque –, sabemos porque os repórteres apareceram com as informações. Não porque a Casa Branca tenha sido solícita ou porque o Congresso tenha exercido a devida vigilância. Acho que esta administração, em termos do mal duradouro causado ao país, é, talvez, pior que a de Nixon, porque ela não foi responsabilizada. O sistema não se corrigiu. […]
A transformação da notícia em entretenimento não seria, ao menos em parte, responsável por parte disso?
É claro. Em 1992, eu escrevi, para a revista New Republic ,’O triunfo da cultura idiota’. Era sobre as fofocas, o sensacionalismo e a controvérsia fabricada estarem se tornando uma tendência dominante. Obviamente, as coisas pioraram muito nos 15 anos seguintes. O fato de que quase toda a nossa imprensa, com muito poucas exceções, seja hoje propriedade de conglomerados é uma mudança enorme. O Washington Post, o New York Times, o Wall Street Journal são jornais muito melhores hoje que no tempo de Watergate. Há muito mais informação neles. Mas em geral os donos de veículos de mídia estão muito menos dispostos a alocar os recursos necessários no tipo de reportagem de que precisamos.
Nova York, seus cidadãos a chamam Big Apple. Já migrantes holandeses que vivem por ali estão insatisfeitos. Acham que a cidade fundada por seus antepassados anda um quê norte-americana demais.
Querem-na de volta. Afinal todos sabem onde fica a Amsterdã original. Já York é irrelevante.
Assim, o movimento para a reinstituição de Nova Amsterdã já teve início. Ele se dá uma rua por vez. Passo a passo. Um trabalho de guerrilha que inclui uma placa aqui, um sinal do metrô ali, um adesivo acolá.
É a preparação para a reinstituição da Big Orange.
[Que ninguém o diga, mas os holandeses que foram fundar Nova Amsterdã eram todos pernambucanos.]
Cristopher Hitchens é às vezes surpreendente, caso por exemplo de suas ferozes críticas à Madre Teresa de Calcutá; é, outras tantas vezes, um chato, um mala – o defensor arrependido da invasão do Iraque. Ou, ainda, Hitchens é o ateu militante – mais ateu, parece, que Richard Dawkins. Que ninguém o negue um mérito: ele nunca é previsível nem facilmente identificável – nem colunista conservador, nem comentarista revolucionário.
No dia 12 de outubro, ficarei muito surpreso se Oslo não conceder a Albert Gore Jr. o Prêmio Nobel da Paz. (Não me perguntem o que uma campanha mundial contra o aquecimento global tem a ver com ‘paz’; seria o mesmo que perguntar o que Madre Teresa ou Henry Kissinger fizeram para reduzir conflitos no mundo, apesar de terem recebido o Nobel. O importante é o impacto do prêmio.)
Então, se eu estiver certo, o ex-vice-presidente terá completado um ano desde que recebeu um Oscar por Uma verdade inconveniente e publicou seu livro best-seller. Pensem nisso: um Oscar, um best-seller e um Prêmio Nobel em pouco mais de 12 meses. Nada mau. Enquanto ele está assim, o grupo de candidatos do Partido Democrata parece uma mistura insossa.
A senadora Clinton conseguiu convencer os eleitores a chamarem-na de ‘Hillary’, fez todo mundo se conformar com o fato de que ela está à frente, mas que tipo de conquistas são essas? O senador Obama sequer finge que acredita que pode ser eleito presidente dos Estados Unidos no ano que vem. John Edwards é um bom homem que está na política por boas razões mas há algo em seu populismo que – como direi? – não cola.
Não são apenas o prêmios que contam a favor de Al Gore. Ele pode argumentar com justiça que foi um senador eficiente e um vice-presideente competente. Pode até dizer que é o candidato que esteve do lado certo em duas questões importantes: a crise climática e a guerra na Mesopotâmia. Devo até incluir aqui que, tendo sido ou não eleito pelo Colégio Eleitoral em 2000, foi ele quem recebeu maior número de votos naquela eleição. Muitos, incluindo gente bem informada, dizem que Gore vai esperar o anúncio do comitê do Nobel antes de tomar qualquer decisão. Se ele decidir disputar o pleito, mudaria por completo a equação. […]
Devo lembrar a todos que, houve o tempo, Gore foi um defensor da remoção de Saddam Hussein e que, no governo, é bem possível que ele não venha a ser um covarde ou um apologista como aqueles que a extrema esquerda deseja. Ele passa a impressão de que tem ainda um bocado de energia política e, por certo, já angariou muita experiência. Seja lá como for, nada será pior do que a atual rotina e se por um acaso cabe aos escandinavos dispararem este processo, então só podemos esperar que, ao menos desta vez, os herdeiros de Alfred Nobel provoquem um efeito mais explosivo e catalítico do que planejavam inicialmente.
Falando aos alunos da Universidade Columbia, em Nova York, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad declarou que, em seu país, não há gays. ‘Não imagino quem possa ter-lhes dito isto’, foi dizendo o bom presidente, ‘não temos deste fenômeno’.
Que há gays, no Irã, evidentemente os há. Em julho de 2005, dois adolescentes foram enforcados por terem transado – um tinha menos de 18 anos. ‘Todo jovem o faz’, um deles declarou. ‘Não sabíamos que havia pena de morte.’ No interior do país, as mulheres usam burqas. O único acesso que um adolescente tem ao sexo oposto são mãe e irmãs. Num cenário assim, não é de todo improvável que a exploração homossexual seja de fato comum na juventude. Na Arábia Saudita é considerado normal para um homem mais velho pegar um rapaz imberbe como amante.
Brian Whitaker, ex-editor de Oriente Médio do Guardian britânico e autor de Unspeakable love: gay and lesbian life in the Middle East – Amor não declarado, a vida de gays e lésbicas no Oriente Médio – escreve sobre o assunto, hoje. Ele lembra que a poesia persa já há muitos séculos se dedica também a temas homossexuais e que, como em todo país da região, pelo menos uma cidade tem fama de gay – o equivalente local a Campinas ou Pelotas. No caso do Irã, é Qazvin, onde há 600 anos viveu o poeta Ubayd Zakani, espécie de Bocage persa, conhecido pelas descrições satíricas e homoeróticas da sociedade.
A forca não é a única pena possível. A chibata é uma alternativa quando não há provas de que houve relação sexual. Há pelo menos uma entidade que luta pelos direitos gays no país – trata-se da Iranian Queer Organization, IRQO. Mas, evidentemente, quem vive no Irã tem medo de se organizar:
Os gays iranianos se dividem em dois grupos. Uns acreditam que organização e resistência ativa da comunidade GLBT provocaria uma forte reação governamental, que poderia atiçar uma contra-reação internacional contra o país. Ninguém quer mais uma desculpa para que venha uma reação militar internacional contra o regime iraniano por conta de violações de direitos humanos. Outros querem lutar por seus direitos civis plenos. […]
Nos últimos meses, ativistas de direitos femininos foram presas violentamente. A IRQO encoraja a comunidade gay e quem a apóia a iniciar petições que levem a apoio popular.
Os gays iranianos que temem se organizar porque isto provocaria uma reação do governo que poderia levar ao ataque do país é provavelmente infundada. A administração de Ahmadinejad e a de George W. Bush têm lá seus pontos comuns. Por exemplo, o de serem co-signatários de um pedido que nega à ONU o direito de financiar organizações que lutem pelos direitos de gays e lésbicas onde são oprimidos.
Exilado momentaneamente na Turquia, Amir, um jovem gay de 22 anos que busca asilo político fora do Oriente Médio, conta sua história de prisão após uma festa:
Os policiais nos vendaram os olhos, jogaram-nos numa van e nos levaram para o Ministério do Interior. Éramos todos conhecidos por nossos nomes. Fui o terceiro a ser interrogado. Os policiais tinham vídeos feitos da festa, em um dos quais eu lia um poema. Eles mandaram que eu o recitasse novamente. Que poema, perguntei. Aí me bateram no rosto, na cabeça. Tentei negar que era gay, então eles me tiraram os sapatos e começaram a bater com cabos de metal nas solas dos pés, provocando uma dor lancinante. Eu ainda estava vendado. Como encontraram consolos na casa da festa, me bateram com eles, enfiaram-nos na minha boca. Quando contei que meu pai era um mártir da Guerra Irã-Iraque, eles bateram ainda mais duro. Tiraram de mim o cartão que me garantia benefícios para filhos de mártires e disseram que informariam à universidade onde estudo de minhas atividades.
O computador do rapaz foi confiscado e as imagens de homens nus que ele tinha foram apresentadas a sua mãe. Durante o julgamento, ameaçaram-no de leva-lo a um médico. É o maior terror para um rapaz gay. Se o médico der um atestado garantindo que alguém já foi penetrado, vem a condenação à morte. Liberado após tortura e multa, Amir conseguiu fugir.
Os alunos de Colúmbia riram quando Ahmadinejad explicou ‘que este fenômeno’ não existia no Irã. Evidentemente, a declaração é tão absurda que faz dele um líder caricaturalmente fanático. Mas, para os homossexuais iranianos, não há graça nenhuma.
Em Montevideo e São Paulo, nossas próximas etapas, teremos ruas bloqueadas com motoristas impacientes buzinando, o caminhão do gerador vai quebrar e chegar atrasado, cachorros vão latir e precisarão ser localizados e silenciados, o clima no Uruguai vai nos dar uma surra, nuvem quando precisamos de sol e sol quando quisermos nuvens. Por mais que se tente, um set ao ar livre é um convite a problemas e dispersão, mas mesmo assim estou louco para chegar lá. Chega de paredes nesse filme e quero ir logo, mesmo sabendo que teremos também um cachorro em cena, chuva artificial e muitos figurantes em todas as cenas. Sim. A temporada de imprevistos está aberta.
Falo em figurantes pois neste filme eles não são apenas gente que cruza o quadro imitando o movimento das ruas. Aqui estão todos cegos. Todo mundo tem que atuar e esse pequeno detalhe foi o motivo que quase me tirou deste filme quando pensei em dirigi-lo. Cada vez que imaginava uma cidade ocupada só por cegos a imagem que me vinha era a de uma população caminhando pelas ruas com os braços estendidos como num filme B, ou Z, de Zumbi. Socorro, pensava. Mas sei que cegos não andam assim, então a primeira providência foi chamar o Chris Duvenport, preparador de atores, e convidá-lo para me ajudar a evitar que este Ensaio Sobre a Cegueira virasse um remake da Volta dos Mortos Vivos.
Fernando Meirelles – diretor de Cidade de Deus – está blogando seu trabalho enquanto filma Blindness, adaptação para o cinema de Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.