Por onde vai a credibilidade da Internet?

Blogs · 31/08/2007 - 00h01 - 70 Comentários

Sou leitor do Edney Souza, do Interney, há tantos anos que já não dá pra fazer as contas. É provavelmente quem mais entende do negócio de blogs, no Brasil. Mas participamos, ontem, de debates diferentes. Ele estava tranqüilo, bem-humorado. Daí que sua avaliação da conversa me causou surpresa. Não é o estado de espírito que ele parecia ter, inclusive, na cerveja de depois.

Não compartilho de suas impressões a respeito da participação de Carlos Merigo e Bruna Calheiros. O Carlos defendeu seus pontos de vista com dignidade e ênfase; a Bruna, embora tenha falado pouco, trouxe uma das contribuições mais importantes da noite: a questão de que a Internet forma leitores mais críticos. Não havia clima de competição. Ainda: jamais classificaria as opiniões de alguém – quanto mais as de um professor especializado no assunto – como ‘ridículas’. Podemos discordar, argumentar o porquê da discordância. Menosprezar sem entrar no argumento é deselegante, coisa que destoa vinda do Edney.

Também não vejo a mesa como desequilibrada. Um jornalista (e blogueiro), três blogueiros, um acadêmico, o responsável pela campanha, um executivo de tecnologia, um analista de publicidade da Meio & Mensagem.

Prefiro não comprar os lamentos do Edney. Me parecem incompreensíveis. Fica parecendo que o objetivo era decretar vencedor ou perdedor. Que havia uma competição. Não havia. Num debate de opiniões, raramente há um certo e um errado, há visões distintas que melhoram quando contrastadas umas com as outras. Se todos concordam, ninguém ganha.

Prefiro, também, não transformar esta numa discussão de velha mídia contra nova mídia. Primeiro porque a conclusão é impossível e a conversa, meio boba. Segundo porque é tentar forçar um embate entre elementos que, na verdade, são complementares. O New York Times erra? Sim. E o reconhece publicamente. O Estadão erra? Evidentemente. Assim como a Folha, como a Veja, como a Carta Capital ou a Globo ou o Globo ou a Caros Amigos. Erramos todos.

Podemos continuar a discussão nestes termos que o Edney propõe – a mesa isso, o fulano aquilo – ou podemos aproveitar os passos já dados e caminhar à frente. Mover a conversa, ampliar o espectro.

Porque o interessante do debate é outra questão.

Há uma conversa fascinante surgindo na blogosfera brasileira. É o que está implicitamente por trás do Blogcamp, encontro de blogueiros do último fim de semana; é o que está implicitamente por trás da reação à propaganda do Estado. Blogueiros estão em busca de saber qual seu lugar no mundo. Sim, eles existem. Sim: há quem os leia. Por enquanto, sua conversa é principalmente entre si. Mas isto irá mudar. Agora, perguntam-se os blogs na maturidade, o que fazemos? Para onde vamos? Que caminho seguimos? Quem somos? Para que servimos? É um debate interno da blogosfera que pode – e deve – ser mais atiçado, mais provocado. Cá este blogueiro tem seus dois ou três centavos de contribuição.

Blogueiros estão entrando neste mundo, o da informação, ainda tateando suas manhas. Sabem que precisam de algo difuso que chamam de ‘credibilidade’, de ‘relevância’. Quando começam a trocar idéias, esta é minha impressão, buscam descobrir aquilo que Steve Jobs chama de make a dent in the Universe; deixar sua marca no universo. Fazer diferença. Mudar as coisas como estão. Melhorar. Revolucionar, até. O ato de informar pode mudar a cidade, o país – o mundo. Ou pode mudar uma classe, seja lá quem for o público alvo.

A Internet terá maior e maior importância na sociedade. A blogosfera, também. A imprensa tem experiência de mais de século nestas coisas que, com o tempo se percebe, nada têm de difusas – credibilidade e relevância. Sem credibilidade, não há relevância. Sem relevância, não há impacto. Nada muda. Se não é para mudar, para que começar?

A fórmula para atrair leitores que não são outros blogueiros é informar algo que os interesse. Não há truques fáceis e dá trabalho. Sim, mapear resultados do Google produz novos leitores vindos de buscas e um ou outro fica. A médio prazo, produz também um blog repetitivo que raramente surpreende. Relevância não vem daí. Mas ter certeza de que um tema será sempre amplamente explorado e que, principalmente, vez por outra haverá algo de inusitado, de surpreendente, isto traz leitores. Pode ser algo que abra um sorriso; pode ser uma informação precisa a respeito de um tema de interesse.

Blogs – como jornais – existem por serem comunidades de leitores. Quanto maior a comunidade, maior a relevância. Nada é mais precioso do que esta comunidade – por mais que alguns comentaristas às vezes testem a paciência do pobre blogueiro. Ela não pode ser traída, e aí entra a questão da credibilidade. O blogueiro que aceita negociar seus assuntos com o anunciante trai a comunidade. Se aceita dinheiro por uma resenha, gosta do produto e o elogia, como confiar? Por que apresentar o dilema da confiança ao leitor? Já foi experimentado. Não dá certo. Mas o tempo o dirá. A ética da imprensa sobreviveu porque ela faz bem para os negócios.

A blogosfera pode ignorar a imprensa, tem todo o direito de fazer isto. Ou pode aproveitar para conhecer um pouco de sua história, conhecer seus erros antigos, os atuais; conhecer também seus acertos. Todos os erros possíveis que possam custar-lhes a reputação de boa fonte já foram cometidos ao longo das décadas e continuam a ser cometidos e têm o mesmo resultado sempre: a perda de relevância.

O dilema de crescimento é o seguinte: produzir blogs que sejam reais armadilhas para a produção de dinheiro via cliques em anúncios, nos quais tudo é feito em função do dinheiro que possa render; ou produzir blogs que crescerão um pouco mais devagar, serão um quê menos automatizados mas, conforme cresce a Internet brasileira, ficarão mais e mais importantes para a sociedade ao seu redor.

No final desta história, quem for relevante terá as maiores audiências. Quem alcançar mais gente venderá mais caro sua publicidade. A moral da história é que Assis Chateaubriand um dia pareceu ser dono do país, mas faliu; William Randolph Hearst (o Cidadão Kane), também. E o New York Times chegará aos 200 anos. (Sim, fará – mesmo que não tenha edição de papel.) Há lições aí.

PS. O companheiro de Estado Renato Cruz também apresentou sua análise.

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