Jorge LaNata e os escândalos de Kirchner

Argentina · 29/08/2007 - 06h04 - 27 Comentários

Os escândalos crescentes do governo Kirchner estão trazendo de volta um velho e conhecido jornalista dos argentinos: Jorge LaNata, fundador do diário Página/12. Até alguns dias atrás, ele atuava como o repórter estrela do semanário Perfil. Foi ele quem investigou e levantou, em junho, a história da mala com 60.000 dólares em espécie escondido bizarramente no banheiro da ministra da Economia, Felisa Miceli. (Custou-lhe a demissão.)

Seu trabalho mais recente foi a apreensão de outra mala, esta com 790.000 dólares, apreendida no aeroporto de Ezeiza, trazida pelo representante oficial do governo venezuelano num jatinho fretado pelo ministro do Planejamento, Julio De Vido.

Num país em que livros vendem – e muito –, LaNata é autor de vários, incluindo um dos maiores best-sellers locais dos tempos recentes, Argentinos, publicado em dois volumes, que conta a história do país. Aliás: melhor do que isso. Faz uma leitura da história argentina, desde as duas fundações de Buenos Aires até o drama que não vai embora dos desaparecidos.

Carlos Castilho, do Observatório da Imprensa, o entrevistou:

Muitos dos escândalos que sacudiram a opinião pública do seu país resultaram de denúncias feitas por funcionários públicos. Isto geralmente é uma conseqüência de interesses pessoais contrariados, uma espécie de vingança. O senhor concorda com este enfoque? E se concorda, por que há tanta desunião entre funcionários públicos?

As fontes das denúncias são muito diversas, desde o rapaz encarregado de fazer uma fotocópia de documento e que faz duas para nos entregar, até funcionários da própria Presidência, interessados em prejudicar colegas. Uma informação nunca é inocente, quem a fornece tem alguma razão para tal. Mas que atitude devo tomar? Perguntando-me quem me está passando a informação, por que e se ela é correta? A resposta a esta pergunta tem, inclusive, um viés generacional. Nos anos 1970, em geral, nós nos preocupávamos, primeiro, em descobrir quem era o responsável pela informação e que interesses estavam por trás dela, o que nos transformava numa espécie de vanguarda protetora da consciência dos leitores. Nos anos 1980, passou a ser mais importante investigar se a informação era verdadeira e, em caso positivo, publicá-la. Pessoalmente creio que a informação tem um valor revolucionário, mas também é uma catarse. [...]

O Brasil vive um processo similar ao da Argentina em matéria de denúncias envolvendo funcionários do governo federal. O senhor acredita que é uma mera coincidência ou há um processo comum em marcha? O fato de que ambos os países sejam governados por presidentes apoiados pela esquerda é um fator importante neste processo?

Acredito que ver toda a América Latina como uma região caminhando para a esquerda é um erro, ou pelo menos uma visão apressada. [Michele] Bachelet, no Chile, não é a mesma coisa que Tabaré [Vazquez], no Uruguai, nem muito menos [o presidente venezuelano Hugo] Chávez ou Rafael Correa [do Equador] ou Evo [Morales, da Bolívia]. No caso de Kirchner, acredito que ele está enredado em seu próprio discurso político: fala desde uma suposta posição de centro-esquerda, mas governa a partir de uma direita, mais segura. Evo Morales, por seu lado, encarna um projeto verdadeiramente insólito de governo indigenista, num país à beira da secessão, enquanto Correa e Chávez se propõem a governar a partir da esquerda, mas adotam atitudes cada vez mais autoritárias. Na comparação entre Brasil e Argentina, me parece que devemos levar em conta também grandes diferenças entre as respectivas burguesias locais.

Qual foi o papel do público argentino na investigação dos escândalos e denúncias de corrupção governamental? Assistiu passivamente ou colaborou com as investigações, fornecendo novos indícios ou provas?

Depende de cada caso e dos jornalistas autores das denúncias. Mas, de maneira geral, não existe entre o grande público uma preocupação com as instituições. A maioria da população ainda prefere os que ‘roubam, mas fazem’.

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