Como Israel impede a paz

EUA · Israel e Palestina · 23/08/2007 - 06h03 - 91 Comentários

Será que há chance de paz entre Israel e Palestina? Num artigo particularmente agressivo publicado pela London Review of Books, Henry Siegman diz que não tão cedo. E que a culpa é de Israel.

O professor Siegman tem o currículo para poder fazer as duras acusações que faz. Alemão de nascença, veio para os EUA pouco antes da Segunda Guerra. É judeu. Estudou num seminário para o rabinato – é religioso. É pró-Israel. E pertence ao Council of Foreign Relations, um dos mais tradicionais centros de estudo das relações externas, nos EUA. Lá, ao seu lado, também está Henry Kissinger. De esquerda, o Council certamente não é.

Mas, as palavras são dele, a experiência de um menino amedrontado e em fuga, na Europa nazista, o faz simpático à causa palestina. Siegman, evidentemente, não é lá muito benquisto perante boa parte da comunidade judaica norte-americana.

Seu artigo:

Nenhuma das tentativas de estabelecer a paz chegou a algum lugar por um motivo que nem Bush, nem a União Européia, têm a coragem política de reconhecer. A razão é o consenso atingido há tempos pela elite israelense de que nunca permitirá um Estado Palestino que negue controle econômico e militar da Cisjordânia a Israel. Sim, Israel permitiria – aliás, insistiria – na criação de um grupo de enclaves que os palestinos possam chamar de país, mas apenas para que não aconteça a outra solução, um país bi-nacional no qual os palestinos seriam a maioria.

O processo de paz do Oriente Médio talvez seja a maior enganação da história diplomática contemporânea. Desde o encontro fracassado em Camp David, em 2000, e até antes disso, o interesse do Estado de Israel num acordo é uma ficção que serviu para disfarçar o sistemático confisco de terras palestinas e uma ocupação cujo objetivo, segundo o ex-chefe-de-gabinete das Forças de Defesa de Israel (IDF) Moshe Ya’alon, é ‘incutir nas profundezas da consciência dos palestinos que eles são um povo derrotado’. Em sua relutante assinatura no Acordo de Oslo e em seu asco pelos assentamentos judaicos, Yitzhak Rabin provavelmente era a exceção, mas até ele defendia que Israel deveria manter o Vale do Jordão e outras partes da Cisjordânia.

Ele continua adiante:

Numa entrevista recente ao jornal Ha’aretz, James Wolfensohn, que era o representante do Quarteto no momento da retirada de Gaza, disse que Israel e os EUA sistematicamente boicotaram o acordo que ele ajudou a amarrar, em 2005, entre Israel e a Autoridade Palestina e que, ao invés disso, transformaram Gaza numa vasta prisão. O homem por trás desta estratégia, Wolfensohn disse, é Elliott Abrams, vice-assessor de segurança nacional do governo Bush. ‘Todos os aspectos do acordo de 2005 foram ignorados.’

Outra entrevista recente concedida ao Ha’aretz, esta com Haggai Alon, ex-assessor de Amir Peretz no Ministério da Defesa, é mais reveladora. Alon acusa a IDF (cujos oficiais mais graduados vivem em assentamentos) de trabalhar clandestinamente pelos interesses dos assentamentos. A IDF, diz Alon, ignora as instruções da Suprema Corte a respeito do caminho que o Muro de Segurança deve seguir e ‘traça um percurso que impedirá o estabelecimento de um Estado palestino’. Segundo Alon, quando os políticos assinaram um acordo para facilitar o acesso de palestinos que queriam entrar e sair de Israel, em 2005, parte do acordo no qual Wolfensohn trabalhou, a IDF fez diferente e facilitou, ao invés, a vida dos assentados. Para os palestinos, o número de blitze aumentou. Para Alon, a IDF ‘é responsável por uma política de apartheid’ que está reduzindo o número de árabes em Hebron e judaizando (o termo é dele) o Vale do Jordão, enquanto coopera abertamente com os assentamentos numa tentativa de impossibilitar a implementação da solução dos dois Estados.

Judaizando é um termo forte: remete ao período violentamente anti-semita da Inquisição, na Península Ibérica. Apartheid é igualmente forte e, constantemente, gera ofensa para quem defende Israel. O último a usá-lo foi o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter. É a primeira vez que ouço vindo de alguém do primeiro escalão do governo israelense. Aliás, do primeiro escalão do governo Ariel Sharon, logo qual.

Uma das dificuldades para estabelecer a paz entre os grupos é a constante recusa, por parte dos palestinos, de abrir mão do direito de retorno. Seu argumento é demagógico, já que tem apelo popular, e falacioso. Afinal, sabem que impossibilita a discussão: se todos os descendentes dos palestinos que deixaram Israel tivessem direito de voltar para o país, Israel deixaria de existir enquanto Estado judaico. Os negociadores palestinos sabem que pedem aquilo que os negociadores israelenses não podem oferecer e, assim, prorrogam-se indefinidamente as conversas.

A leitura que o professor Siegman faz do acordo proposto pela Liga Árabe, em 2002, é interessante. Ele sugere que os governos árabes vizinhos aceitariam um retorno simbólico em número que Israel poderia determinar. A vantagem desta solução é que a Autoridade Palestina, que há décadas promete o retorno, teria algo a dizer para seu eleitorado. Não desistiu do retorno, negociou-o. A Liga Árabe é um aliado suficientemente forte para convencer a AP a aceitar.

Boa parte da população israelense, não custa lembrar, deseja a paz. Os assentados, e seus aliados, são minoria.

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