O Plano Marshall e a reconstrução da Europa

EUA · Europa · História · 21/08/2007 - 09h49 - 65 Comentários

O Plano Marshall foi ousado. Após a Segunda Guerra, entre junho de 1947 e o fim de 1951, os EUA ofereceram 13 bilhões de dólares para financiar a recuperação da Europa. Era o equivalente, na época, a 5,4% do PIB norte-americano em 1947.

Seria o equivalente aos EUA dedicarem 750 bilhões de dólares em números de hoje.

Niall Ferguson é um dos mais reconhecidos historiadores da atualidade e resenha, para a New Yorker, o livro The most noble adventure: the Marshall Plan and the time when America helped save Europe – A mais nobre aventura: o Plano Marshall e o momento em que os EUA ajudaram a salvar a Europa –, assinado por Greg Behrman.

O Plano Marshall deixa memórias vivas e, em cada instante, ele é relembrado e indicado como boa política. Da última vez foi no Afeganistão. Um Plano Marshall salvaria o Afeganistão. Hoje, os EUA dedicam não mais que 0,2% de seu PIB a ajuda externa. Mas um Plano Marshall faria diferença? É isto que Ferguson se pergunta.

Nenhuma política até então parecia resolver a falta de dólares – o fato de que uma Europa exausta não conseguia dinheiro estrangeiro o suficiente para pagar pelas importações necessárias vindas dos EUA. Behrman mostra como o Plano Marshall resolveu este problema. Um fazendeiro francês que precisasse de um trator norte-americano o compraria com francos franceses. A Administração de Cooperação Econômica (braço executivo do Plano) consultaria o governo francês a respeito da transação. Se fosse aprovada, o fabricante do trator, nos EUA, seria pago com fundos do Plano Marshall. Os francos do fazendeiro, por sua vez, iriam para o Banco Central da França, permitindo que o governo francês gastasse este dinheiro na reconstrução, [poupando sua reserva de dólares]. O Plano Marshall fazia duas coisas ao mesmo tempo, aliviava a pressão no balanço de pagamentos francês enquanto bombeava dinheiro para o plano de recuperação local. Ele tinha um efeito multiplicador, para usar o termo do economista John Maynard Keynes. De acordo com um observador da época, cada dólar Marshall estimulava de entre 4 a 6 dólares em produção européia.

Mas a Europa precisava do Plano? Na avaliação de Ferguson, sem o Plano Marshal, a Europa:

1. Não se fragmentaria economicamente, o embrião da comunidade européia já havia nascido antes do Plano;

2. A indústria norte-americana também não se beneficiou particularmente. Na época, o mercado interno dos EUA era vastamente maior. Não houve, nos dizeres do Partido Comunista francês, uma ‘Cocacolonização’ da Europa.

3. E, sem um Plano Marshall, a Europa Ocidental também não estaria particularmente frágil a uma investida de Stálin, como alguns sugerem. O que deteve a União Soviética foram as armas norte-americanas, não seu dinheiro.

A conclusão do professor é que a Europa se levantaria – com um pouco mais de dificuldade, é fato, os movimentos sindicais seriam mais intensos, haveria uma crise aqui e ali, mas a Europa se levantaria sem o Plano Marshall.

O que o Plano Marshall produziu foi algo de profundamente valioso para os EUA que durou quase toda a Guerra Fria: boa vontade européia. O selo do Plano que vinha em sacas de cereais, que estava afixado em lojas várias, ainda povoa o imaginário de europeus que lembram o período até hoje. Eram os EUA presente num momento de dificuldade. Ajudando.

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