Larry Rohter, do New York Times, fala pela 1a vez

Brasil · EUA · Mídia · 19/08/2007 - 10h45 - 82 Comentários

Soltamos uma edição particularmente boa do Aliás, no Estadão de hoje. Há uma reportagem minha que me divertiu fazer, conversando com historiadores norte-americanos, tentando imaginar o que seria do mundo se Bobby Kennedy não tivesse sido assassinado em 5 de junho de 1968.

O destaque, no entanto, é a entrevista de Flávio Pinheiro e Laura Greenhalgh com Larry Rohter, o correspondente do New York Times para o Mercosul, que está deixando seu cargo. É a primeira vez que Larry fala à imprensa. É também o primeiro correspondente estrangeiro a ter sido ameaçado de expulsão do país desde a democratização. (A entrevista pode ser encontrada no site do Observatório da Imprensa)

Acha mesmo que o presidente queria ir às últimas conseqüências?

O que eu acho, desde o início, é que o presidente foi mal assessorado. Difícil saber o que de fato aconteceu no Palácio do Planalto naqueles dias, mas tudo indca que as coisas ficaram ruins pro meu lado. Só mudaram de curso quando o então senador Sérgio Cabral entrou com um habeas-corpus a meu favor. Ali, e só ali, senti que, num eventual julgamento da questão, o Supremo, inteiro ou boa parte, ficaria contra o governo. O ministro Márcio Thomaz Bastos (da Justiçã) não tinha outra opção a não ser costurar um acordo. [...]

Zunzunzum vale como notícia?

Naquela situação, sim. Comecei a apuração e procurei o Planalto. Queria falar com o presidente. Não fui recebido, mal consegui tratar com a assessoria dele. O secretário de imprensa, Ricardo Kotscho, não me recebeu. Falei com o número 2, Fábio Kerche. Apresentei minhas questões. Aguardei uma manifestação por dez dias e nada. Até que aconteceu um fato, que vou revelar em meu livro, e voltei a fazer contato com o assessor. Disse-lhe: ‘A coisa vai sair. Se vocês quiserem se manifestar é agora.’ Ainda coloquei uma declaração transmitida pelo assessor na minha matéria. Mas jamais me receberam, jamais quiseram saber o que eu sabia. [...]

Invertamos a situação: se um correspondente brasilero assinasse a mesma matéria sobre o presidente americano, o que aconteceria?

Já aconteceu! Já se falou de Bush e seu consumo de bebidas.

Em relação a tempos de juventude, ao passado dele.

E que estaria curado, convertido, Bush nasceu de novo… Passamos por escândalos imensos, como o caso Monica Lewinsky, no governo Clinton, e o país continuou firme. Eu acharia uma bobagem impugnar Clinton por esse motivo. Curiosamente, na época em que eu estava fazendo a matéria sobre Lula, gente do Planalto tentou me dissuadir do trabalho lembrando justamente o affaire Clinton-Lewinsky, argumentando que a intimidade de um presidente não é pauta. Respondi que qualquer tópico que tenha a ver com o desempenho do presidente é pauta.

Uma última palavra antes da discussão: conheço Larry pessoalmente. É um sujeito encantador que fala um português fluido, o português mais bem falado por estrangueiro que jamais ouvi. Se você estiver distraído, sequer percebe que não é sua língua materna. Casado com brasileira, pai de brasileiros, colecionador de livros de cordel, ele conhece o Brasil como poucos brasileiros. Do nordeste ao sudeste, da cidade às matas do norte, não há canto do país que lhe seja desconhecido. Nos anos 1970, foi provavelmente o primeiro jornalista a escrever, no exterior, sobre o líder sindical emergente Lula. É difícil dizer, mas Larry se não foi o mais bem preparado correspondente a tratar do Brasil nos últimos anos, estava certamente no grupo dos três mais.

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