Uma entrevista aos sábados

Cinema · Gente · Pop · 18/08/2007 - 05h45 - 56 Comentários

Nós nos preocupamos demais com o bem-estar das baleias, pandas e rãs arborícolas. Mas há culturas morrendo numa velocidade incrível. Ainda há seis mil línguas vivas, muitas delas faladas por pouquíssimas pessoas. Até o fim do século, pode ser que restem apenas dez por cento. Conheci um aborígine australiano que tinha 80 anos e era o único falante de sua língua. Era considerado mudo porque não tinha com quem conversar. Está morto agora, com certeza.

Mais que em qualquer outro período histórico, nosso senso de realidade está gravemente ameaçado. É a Internet, o Photoshop, são os efeitos digitais no cinema, os videogames — ferramentas que surgiram com impacto imediato. É como nas batalhas militares. Durante séculos, as batalhas foram iguais: o cavaleiro medieval em combate, com uma espada. De repente, ele se deparou com armas de fogo, e da noite para o dia tudo mudou. Estamos passando agora por um momento de igual magnitude.

O turismo é um pecado. Viajar a pé é uma virtude. No momento em que as pessoas entendem que você chegou a pé, e está tentando misturar-se a elas e compreendê-las, ocorre uma mudança imediata em seu comportamento. A pé, você não é perseguido nem impedido de usar os recursos dos outros. Você ouve histórias que não foram contadas a mais ninguém.

Levei um tiro no ano passado. Não me afetou porque eu já tinha sido baleado antes. Uma vez, quando estava com uma unidade de elite de rebeldes, cruzando a fronteira de Honduras para a Nicarágua, ficamos sob fogo no meio de um rio, o que foi desagradável, pois estávamos visíveis demais e a selva escondia os atiradores.

Werner Herzog, na Piauí.

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