William Gibson vê o mundo de hoje

Gente · História · Mundo · Pop · Tecnologia · 17/08/2007 - 06h14 - 29 Comentários

William Gibson inventou o termo ciberespaço. Escreveu Neuromancer, seu best-seller de princípios dos anos 1980 que vendeu mais de 6 milhões de cópias. É o líder do movimento cyberpunk da ficção científica. E, agora que está saindo com um romance novo – chama-se Spook country, algo como Terra de espiões – a Salon o entrevistou. Dois trechos:

O Second Life não tem nada a ver com o que eu imaginava quando falei de ciberespaço. Aquilo é o que as personagens em meus primeiros romances chamariam de um ‘constructo’ – antes de existir realidade virtual, é como eu a chamava. Então, imaginei constructos onde as pessoas se apresentariam na forma de avatares. Outra coisa que imaginei, em Idoru, foi um grupo de adolescentes que viviam vidas virtuais, escondidas em sites corporativos abandonados que elas modificaram a seu bel prazer. Estas são as coisas, em minha ficção, parecidas com o Second Life. Não cheguei nem perto. Eu nunca poderia imaginar uma empresa que cria um mundo virtual no qual compras e mercado imobiliário são as duas atividades mais populares. Me parece convencional demais para dar boa ficção-científica. [...].

É curioso, com tanta gente falando do Second Life como se fora a quintessência da vida virtual, enquanto o pai do ciberespaço o chama do que realmente é: convencional. Pouco surpreendente.

Sempre me senti na obrigação de não me comprometer com nenhuma nova tecnologia. Toda tecnologia, me parece, é moralmente neutra. O que assusta a maioria das pessoas – ao menos assusta a mim – é que ninguém exige que uma tecnologia surja. O Congresso não vota para que se invente telefonia celular ou para que se crie um sistema de celulares pelos EUA, pelo mundo. Isto simplesmente acontece e o dinheiro flutua na direção de algumas tecnologias e isto muda nos níveis mais profundos as nossas vidas. Mas ninguém decidiu que seria assim. Neste exato momento, em algum lugar, alguém está trabalhando em algo que vai mudar nossa vida profunda e intimamente nos próximos dez anos. Você não sabe o que é e os sujeitos que estão criando esta coisa não sabem qual será a natureza da mudança que provocarão em nossas vidas. Nada disto é previsível.

Há três anos, quem imaginaria que vídeos seriam parte de nosso cotidiano na Internet ao lado de textos? Há dez anos, quem cogitaria as câmeras digitais que nos permitem retratar, filmar, sem gasto com filmes, tudo é registrável? Há quinze anos, quem imaginaria que email ou celular seriam assim tão parte de nós? Há trinta anos, computadores. E o que será dos próximos dez?

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