Hoje a Índia faz 60 anos

Oriente Médio · Ásia Central · 15/08/2007 - 11h37 - 33 Comentários

A história da relação entre Índia e o Império Britânico é fascinante – talvez a mais fascinante da história do imperialismo. J-P. Albert Struck comenta sobre como esta relação produziu a Índia de hoje:

As verdadeiras comemorações de independência estão reservadas, normalmente, para os primeiros anos, quando ainda existe euforia. Para os mais distantes existe a intenção de homenagear aqueles que tiveram papel relevante no processo e estão nos últimos anos de vida. Com 60 anos sobra a reflexão. 1947 marcou o fim de dois séculos de presença britânica no subcontinente. Presença, claro, nefasta na moderna visão democrática, mas que no final foi benéfica para o país – ou países, pois depois de independente, o antigo domínio britânico foi se fragmentando com os anos e deu origem ao Paquistão, Sri Lanka (antigo Ceilão) e Bangladesh (Paquistão Oriental).

A fragmentação subseqüente mostrou que a idéia de um país de pobres almas que caiu na teia de uma nação imperialista é bastante exagerada. Antes dos britânicos, a idéia da Índia como unidade política simplesmente não existia. Era uma ordem mais ou menos parecida com a feudal: marajás e rajás aqui e ali, reinos acolá, etc. Um mosaico impressionante de pequenos países. Para dar alguma homogeneidade, os britânicos usaram violência, mas na maioria dos casos, tornaram os pequenos reinos e principados Estados tributários ou clientes da Grã-Bretanha. Foi assim que conseguiram manter – como Lênin admirava, mas enganado quanto à forma – o domínio sobre 400 milhões de pessoas (à época da independência) com não mais que alguns milhares de funcionários e soldados. E era uma administração tocada com eficiência.

Enquanto isso, na Slate, Fred Kaplan faz um paralelo interessante:

Quem acredita que o exército dos EUA pode simplesmente sair do Iraque sem o risco de deslanchar horror ainda maior do que o corrente, quem acha que a partição religiosa ou étnica do país é uma solução, deveria voltar seus olhos para o verão de 1947, quando o Império Britânico deixou a Índia para que esta concluísse seu ‘encontro com o destino’ (segundo as palavras de Jawaharlal Nehru). O resultado foi uma monstruosa onda de limpeza étnica, com 12 milhões de pessoas transferidas de lugar e quase um milhão, mortas. O conflito não se resolveu até hoje. [...]

Os muçulmanos exigiam um Estado independente. Na pressa de sair logo, os britânicos concordaram. Eles negociaram a criação do Paquistão, desenharam fronteiras com descuido e, sem que pudessem evitar, criaram mais problemas do que resolveram.

No dia 15 de agosto, quando os britânicos saíram, milhões de hindus em terras muçulmanas e muçulmanos em terras hindus – além de incontáveis sikhs em ambas – foram maltratados, estuprados ou assassinados. Muitos juntaram seus pertences e migraram mas, sem proteção, foram massacrados no caminho. O Exército Indiano, criado pelo Império Britânico, também se dividia internamente em linhas religiosas e, como sugere a resenha de um livro recente, ‘muitos dos soldados acabaram por juntar-se aos seus co-religiosos em ondas de assassinato, levando a violência da partição ao limiar do genocídio.



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