China, o recall e a crise diplomática

China · EUA · 15/08/2007 - 03h48 - 28 Comentários

Zhang Shuhong se enforcou no armazém de uma das fábricas que presidia em Hong Kong, durante o fim de semana. Ele é o responsável pela produção de 1,5 milhão de brinquedos infantis feitos em plástico e pintados com tintas a base de chumbo que a Matell teve de recolher, nos EUA, a um custo estimado de 30 milhões de dólares.

Recalls chineses em pauta: 450.000 pneus, recolhidos em julho; alerta contra pastas de dentes envenenadas; e 60 milhões de latas de comida para gatos e cachorros, igualmente envenenados. Agora, há a suspeita de que um remédio abortivo controlado e produzido na China pode ter matado 6 mulheres, nos EUA.

A China exportou 560 bilhões de dólares no primeiro semestre do ano. É uma paulada na economia global. Não à toa: com mão-de-obra barata, empresas de todo o mundo preferem fabricar lá e vender no resto do planeta. A história é conhecida. A parte desconhecida deste conto começa a vir agora. Num mercado onde há pouca regulamentação, a pressão para descer os custos é alta. Sim, a China pode parecer uma obsessiva moralizadora quando condena à morte políticos corruptos. Mas é só aparência. É um país onde muitas mãos podem ser molhadas em troca de favores.

Não é só corrupção, é também cultura. Empresas chinesas têm padrões menos rigorosos do que empresas ocidentais. Num país onde não há liberdade de protesto, não lhes importa muito se algum produto mata uma meia dúzia. Já a repercussão externa está sendo grande.

Ainda não há discussão de boicote e o último mês foi bom para o governo chinês. Cresce ano a ano – assim como o déficit comercial dos EUA com a China é o maior que o país jamais teve com qualquer parceiro: 232,5 bilhões de dólares em 2006. Será maior em 2007. A China é também o maior credor mundial dos EUA.

Não quer dizer que Washington não tenha qualquer poder nesta relação. Sem o mercado consumidor interno dos EUA, a China dança. A imensa quantidade de recalls pode ter um pé numa estratégia norte-americana de fazer frente aos chineses e impor limites mas está baseada em mortes reais – de bichos e de, agora parece, pessoas. A China está preocupada.

E a relação entre os dois, mais do que nunca, pode ser considerada instável.

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