A ascensão antes da queda de Karl Rove

EUA · 14/08/2007 - 10h26 - 46 Comentários

A história de Karl Rove é uma aula de Estados Unidos, de democracia funcional e do que acontece numa democracia funcional quando o sistema vai mal. Engana-se quem entendeu Rove como mais um marqueiteiro de campanha. Ele foi muito além disso e fez, do governo Bush, um dos governos mais ambiciosos da história norte-americana. É uma lição sobre política contemporânea, essencialmente, porque mostra o que acontece quando um marqueteiro assume as rédeas da política.

George W. Bush não foi um mau governador do Texas. Demonstrava alguma aptidão política e suas negociações com a Câmara estadual eram sempre bipartidárias. Conseguia um bocado de coisa e sua primeira atuação, no governo nacional, seguiu esta linha. Foi o programa No child left behind – Nenhuma criança largada para trás –, conjunto de políticas e testes para as escolas públicas que permitem aos pais escolher em que colégio matricular seus filhos e premiam as instituições de melhor desempenho com mais recursos. O programa, que mexia com a autonomia das escolas, foi negociado entre os dois partidos e votado em plenário por ambos.

Ao assumir, Bush era um presidente fraco e com uma crise de legitimidade. Al Gore havia ganho a eleição por número de votos e perdeu, após uma longa briga na Flórida, no Colégio Eleitoral. O país estava dividido.

Karl Rove olhava para a história e via o seguinte quadro: as grandes propostas do Partido Democrata para o século 20 já estavam conquistadas – o fim da segregação racial, direitos das mulheres, a necessidade de sustentação ecológica. As causas republicanas também foram conquistadas: o fim da União Soviética, criminalidade em queda, impostos mais baixos. A falta de grandes causas deixavam o eleitorado mais móvel e a fidelidade partidária, frouxa.

Do Brasil, pode parecer difícil compreender, mas ser republicano ou ser democrata faz parte da identidade do cidadão norte-americano. Em alguns momentos chaves da história, houve migração de um campo para o outro e uma reconsolidação da identidade partidária. Rove acreditava que, tendo eleito Bush, conseguiria fazer esta gigantesca movimentação, emplacando uma era de sólido domínio republicano. O que faltava a Bush era uma Grande Depressão – que permitiu a Franklin Roosevelt migrar votos do partido Republicano para o Democrata – ou uma Guerra Civil – que permitiu a Abraham Lincoln fazer o inverso. Aí veio o Onze de Setembro.

Enquanto Dick Cheney e Donald Rumsfeld assumiam as rédeas da política externa, Karl Rove assumiu as da política interna. Tinha novos planos de reforma profunda do Estado – entre eles, uma bela mexida na Previdência Social. Rove é provavelmente o mais hábil marqueteiro político a ter tocado campanhas eleitorais. Mas o que acontece quando o marqueteiro – que não é político – assume a política?

Seu critério para assumir posições políticas eram as pesquisas. Ciente de o que fazer para agradar que parcela do eleitorado, imbuído da convicção de que tinha carta branca da população após o Onze de Setembro, Rove foi bater no Congresso. Era um negociador agressivo. Tratava deputados e senadores como superior hierárquico por conta da autoridade que lhe fora garantida pelo presidente da República. Exigia a aprovação de determinadas leis. E, embora no início tivesse uma fina margem de superioridade, começou a ser derrotado.

Aos olhos do público em geral, o Poder Executivo parecia estar se inclinando à extrema direita. A máquina federal foi utilizada para manter viva uma mulher, Terry Schiavo, com morte cerebral declarada. Usou-se o poder do Estado para tentar impor um limite para o casamento entre homossexuais. E baniu-se o financiamento público de quase todos os experimentos com células tronco – o que, em essência, quer dizer banir de fato os experimentos. Não se faz ciência, nos EUA ou em qualquer parte do mundo, sem dinheiro público.

Foram, os três casos, questões menores que a máquina da Casa Branca decidiu jogar no centro dos holofotes. É fato que mobilizou a base conservadora do eleitorado. Mas mobilizou também a base de esquerda e incomodou profundamente o lado liberal do Partido Republicano, um bom naco de gente que acredita que o governo não deve se intrometer em questões, ainda que difíceis, da intimidade das pessoas. Um governo tão empenhado em polarizar a opinião pública assustou a deputados e senadores republicanos. Políticos profissionais, afinal.

O mesmo Karl Rove que armava grandes tempestades em copos d’água perante o público, exigia reformas profundas, primeiro da Previdência, depois das leis de imigração. Rove acreditava que conseguiria atrair boa parcela do eleitorado hispânico facilitando o ganho da cidadania – e provavelmente é verdade. Mas os deputados republicanos sabem onde lhes doem os votos. Reforma que vai mexer com muita gente e produzir descontentes demais se faz com conversa, não com porrete. Por um motivo muito simples: a não ser que o voto em plenário una tanto republicanos quanto democratas, só um partido levará a culpa por medidas potencialmente impopulares. Ninguém quer apanhar na eleição seguinte – então, sem união bipartidária, ninguém vota o que é polêmico demais.

Nos EUA, onde o voto é distrital e se dá desta forma há séculos, não só faz parte da identidade pessoal do eleitor seu partido político como faz parte do hábito escrever para o deputado de seu distrito. Todo deputado sabe muito bem para onde se encaminha a opinião de quem o elege. Quando uma questão polêmica está à mesa, os parlamentares ficam imediatamente acuados – têm a quem prestar contas. Rove, o polarizador, foi de uma inabilidade política estrondosa. O resultado é um presidente com o mais baixo nível de popularidade no último quarto de século e parlamentares republicanos desesperados com o tamanho da insensibilidade política de quem os conduziu a este desastre.

A tentativa de transformar a política em marketing fracassou provando que governo ainda é uma arte muito mais sofisticada e sutil do que campanha eleitoral. A tentativa de transformar Bush em Roosevelt e Lincoln fracassou por um motivo que, do alto de seu profundo conhecimento, inacreditavelmente escapou a Karl Rove: Bush não chega aos pés destes grandes homens.

(Algumas das informações contidas aqui estão no excelente artigo The Rove presidency – A presidência Rove – publicado na última edição da Atlantic Monthly. Há também bons livros sobre Rove, entre eles Rove Exposed.)

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