Hiroshima, Nagasaki e o racismo dos EUA

Alemanha · EUA · Europa · Japão · 9/08/2007 - 05h07 - 165 Comentários

Há 62 anos hoje, o B-29 norte-americano Bockscar sobrevoou a cidade de Kokura, no Japão, carregando a bomba atômica ‘Fat Man’. Uma nuvem espessa impedia contato visual com o lugar. O major Charles Sweeney, que comandava a missão, decidiu partir para Nagasaki, seu alvo secundário. Às 11h01, o artefato carregando 6,4kg de plutônio-239 foi solto no ar e caiu por 43 segundos até que, 469 metros acima da superfície, explodiu. A temperatura foi elevada a 4.000 graus e o desclocamento de ar provocou ventos de 1.000 km/h. Tudo o que havia num raio de 1,6km desapareceu.

Aí, 70.000 pessoas morreram. A elas, somaram-se outras 10.000, nos meses seguintes.

Mick Hume é o tipo do marxista que a direita gosta. (Ele é daqueles que acha aquecimento global uma forçada de barra.) Colunista do Times de Londres, ex-editor-chefe da revista online Sp!ked, Hume é inteligente, bom argumentador e polemista dos bons. Agora, tem uma provocação nova na praça: as bombas de Hiroshima e Nagasaki foram atos racistas.

O Japão era um problema para as elites ocidentais desde que a vitória sobre a Rússia, em 1905, o lançou no cenário mundial. Emergiu como um dos grandes poderes capitalistas mas jamais realmente fez parte do clube. Sua população não era branca. A noção de superioridade racial e das ‘responsabilidades do homem branco’ estavam na base ideológica e na auto-imagem do imperialismo ocidental. Uma nação asiática não poderia ter o direito de sentar-se livremente à mesa do poder.

A Conferência de Versailles, realizada em 1919 após a Primeira Guerra, dá evidência deste duplo padrão racial. Enquanto norte-americanos e britânicos se comprometiam com os novos movimentos de afirmação nacional europeus, negaram ao Japão a inclusão de uma cláusula de ‘igualdade racial’ no tratado que deu forma à Liga de Nações (precursora da ONU). Um testemunho diz que a emenda japonesa rejeitada era ‘um evidente desafio à teoria da superioridade da raça branca na qual se baseavam as pretensões imperiais britânicas’.

Para Hume, o governo dos EUA tinha plena consciência de que o Japão se renderia. Relatórios da inteligência norte-americana já davam notícia de que a liderança militar japonesa se movimentava para a rendição três meses antes das bombas. Outros documentos indicam que, mesmo antes de a derrota nazista estar clara, os EUA jamais tiveram a intenção de jogar a bomba que construíam na Europa. Não, nem mesmo na Alemanha que causava o Holocausto.

Acontece, ele segue seu raciocínio, que a bomba não seria jogada contra a Europa mas tinha que ser jogada de qualquer forma. Motivo: ela consolidava o domínio mundial econômico e militar dos EUA para o tempo que estava para vir no pós-Guerra.

Exagero de Hume? A discussão é boa. Os documentos que apresenta indicando que não havia a intenção de jogar a bomba contra a Europa são intrigantes. Costumamos pensar que só a Alemanha Nazista era racista. Mas, embora talvez jamais viessem a criar uma máquina de genocídio como a do Holocausto, todos os poderes imperiais europeus criam, ainda na primeira metade do século 20, na superioridade de sua civilização perante todas as outras do mundo. É um tempo que nos soa distante, hoje, mas ainda há gente por aí que viveu tal momento. Tintim na África foi tema deste Weblog não faz muito tempo.

(O Bitt escreveu dois bons posts sobre o assunto no Neuromaníaco.)

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