O Islã à moda do Partido AK da Turquia

O Exército turco ameaçou intervir caso o governo do premiê Recep Tayyip Erdogan não convocasse eleições. O motivo: com a saída do atual presidente, Erdogan queria que seu braço direito e atual ministro do exterior, Abdullah Gul, assumisse o cargo. (Lá, é o premiê quem indica o presidente.)
Desde os tempos do fundador da República Turca, o general Mustafa Kemal Atatürk, o exército é o braço laico do jogo político nacional. Atatürk modernizou a Turquia. Impôs vestes ocidentais, trouxe as primeiras gráficas – mas era um ditador. Espécie de Getúlio Vargas umas décadas antes. O exército tomou apego pelo poder e muitos, por lá, ligavam os militares à alternativa a um governo islâmico.
Nas últimas eleições, o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AK), chegou ao poder. É um movimento islâmico. No pleito de domingo, o AK ampliou sua participação – de 34% da última eleição para 47%, agora. Terá quase metade do Parlamento e Erdogan ganhou autoridade para apontar quem quiser para o cargo que bem querer. Foi o povo quem o decidiu.
A foto do New York Times, aí em cima, não está aí à toa. A menina bonitinha e sem lenço na cabeça que celebra a vitória do AK, vestida assim com camiseta justa, seria presa na Arábia Saudita. É este tipo de governo islâmico que existe na Turquia.
Não se trata de um partido urbano. Pelo contrário. O partido tem por base uma elite comerciante que, vinda do meio rural, migrou para as cidades após o boom econômico turco dos anos 1980. É um partido de classe média. O governo melhorou a economia do país, ampliou os laços de comércio com Israel, está trabalhando para cumprir tudo o que lhe pede o FMI. Muda as leis conforme lhes exige a União Européia, para ter chance de entrar no bloco político e econômico.
Erdogan tem apoio popular, mas a mulher de seu candidato a presidente usa um hijab. Isto mete medo na Turquia urbana e cosmopolita das cidades; e mete medo no exército, com suas fortes tendências golpistas. Em seu discurso de vitória, Erdogan diz que respeitará os eleitores que não votaram no AK. E que considera que suas opiniões diferentes são o que dá cor para a democracia nacional.
Talvez. A trupe laica respira fundo. Se o AK tivesse angariado dois terços dos votos, teria permissão para mudar a Constituição do país. Numa próxima eleição, pode acontecer. Mas será um medo infundado? Nada do que o atual governo fez realmente indica a intenção de construir um governo islâmico. É um partido que tem religião mas, a princípio, governa de forma laica.
O New York Times sugere que é o sucesso econômico do governo de Erdogan que motivou seu sucesso eleitoral. Faz todo sentido. O exército desconfia, e persistirá desconfiando, mas a princípio parece estar sem autoridade para lançar mão de um golpe. Os governos da União Européia, que têm de lidar com uma população cada vez mais anti-islâmica e abertamente preconceituosa, desconfia igualmente.
Erdogan governa para os turcos e para fora, coisa que não é nada fácil. Tem de agradar a todos sem jamais perder sua identidade religiosa, que define seus eleitores de raiz. Mas tem uma chance fantástica nas mãos: o de redefinir para o mundo um governo islâmico democrático.
Seu principal problema está ao sul. São os curdos que, incentivados por movimentos mais radicais no Irã e no Iraque, querem separar-se. Mas, nesta eleição, um número razoável de curdos concorreu e se elegeu para o parlamento. Esta é outra mudança que poderá fazer bem à Turquia.
Ainda sobre o assunto:
- Turquia, União Européia e uma visita a Alhambra No início do ano, o premiê turco Recep Tayyip Erdogan esteve na Espanha para o encontro da Aliança das Civilizações...
- Turquia, curdos, Iraque e como uma
situação difícil pode piorar O PKK – Partido Curdo dos Trabalhadores – é um problema. O grupo – considerado terrorista por EUA, OTAN e... - A crise do Islã no Paquistão Cumprindo a ameaça que já fizera, o presidente e general paquistanês Pervez Musharraf deu ordens para que o exército invadisse...
- Sobre o Islã, de Ali Kamel Boa parte da geopolítica que discutimos cá neste Weblog, todos os dias, está intimamente entrelaçada com o Onze de Setembro....
- E se o Islã não existisse? Graham Fuller, ex-diretor do Conselho Nacional de Inteligência da CIA, é o autor do artigo de capa da última edição...



vacina contra a ignorância
https://secure.acton.org/BookShoppe/main/title.php?id=575
“bonitinha, mas ordinaria”… e burrinha…comemorando a propria desgraca…vejo coisa…
E lá vamos nós de novo.
Nada de exemplos bons. Não se pode permitir um país de religião islãmica que nãotenha um governo islâmico. Tem que ter esta mistura de política e fé. Acho que política e fé devem render juntas muito mais grana, poder e prestígio do que separadas. Tipo assim tráfico de drogas, caça-níqueis e carnaval.
É a única explicação possível.
Não dá para imaginar que líderes religiosos tenham idéias tão estúpidas à toa. Não pode ser fé. Tem que ser outra coisa…
Democráticos? Até a etnia dos curdos é negada, são chamados de turcos das montanhas.
“A menina bonitinha e sem lenço na cabeça que celebra a vitória do AK, vestida assim com camiseta justa, seria presa na Arábia Saudita. ”
É mesmo. Não apenas seria presa, mas seria presa com o opoio dos EUA.
Ou a ditadura da Arábia Saudita não é apoiada pelos EUA?
Lindo isso!
O governo melhorou a economia do país, ampliou os laços de comércio com Israel, está trabalhando para cumprir tudo o que lhe pede o FMI.
Ora!ora!ora! Estão no caminho certo…Logo, logo, serão uma superpotencia na asia. hahahaha
A menina bonitinha e sem lenço na cabeça que celebra a vitória do AK, vestida assim com camiseta justa, seria presa na Arábia Saudita.
PD, você não levou em consideração a idade da menina, se não lhe desceu a 1ª menstruação, ela não tem que usar o hijab. Veja que ela quase não tem seios formados.
A Turquia não vai entrar na União Européia.
A Europa não vai aceitar nunca!
É uma espécie de democracia relativa, ameaçada por “companheiros sinceros, mas exaltados”.
A tensão entre ocidentalização e lei islâmica produziu Khomeini. A Turquia não parece seguir o mesmo caminho.
O processo turco é interessante e faz por merecer mais espaço na imprensa e neste blog. Tem muita coisa em jogo: minorias étnicas, conflito entre democracia e islamismo, União Européia. Que se manifestem também os outros craques do boteco.
Sou todo ouvidos.
PD,
Você está moderando comentários?
Há algum tempo, o André Fucs escreveu umas observações bem interessantes sobre a Turquia e a possibilidade de que lá possa ser construída uma democracia islâmica, a despeito das desconfianças da União Européia que insiste em lhe negar ingresso.
Ao mesmo tempo, há a questão dos curdos, tradicionalmente marginalizados. A notícia de que alguns conseguiram mandatos é boa, me parece.
Alba –
Não pessoalmente. Mas o sistema fisga uns, vez por outra. O seu, já o liberei.
Democracia Islâmica é como bola quadrada. Interessante como inovação mas não serve para o fim que se propõe…
PD,
Tks! :)
O simples fato do exército ameaçar intervi em quarteladas à la Chávez já desqualifica a Turquia para a CE. Alguem aí imagina a Royal Army ameaçando a rainha da inglaterra?
A democracia ainda não deu certo no países islamicos por questão de tempo, cedo ou tarde vai funcionar.
Igual a América latina, esta engatinhando, mas um dia anda.
Theo // 23/Julho/2007 às 23:57
A democracia ainda não deu certo no países islamicos por questão de tempo, cedo ou tarde vai funcionar.
Igual a América latina, esta engatinhando, mas um dia anda.
Caro Theo,
o problema são os danos causados enquanto se engatinha. Engatinhar sobre brasa não é pré-requisito.
Tanto cá, como lá
Amplexos
É uma engenharia política e tanto a conciliação do islamismo com a democracia, e essa constatação não decorre de preconceito ou reducionismo.
Quando falamos em democracia, nos referimos ao tipo que conhecemos tentamos aperfeiçoara aqui por estas plagas: pluralismo partidário, separação entre os três poderes, imprensa livre, direito à livre associação e, para não encompridar, separação categórica entre Igreja e estado.
E aí a coisa pega. O Islã é teocrático por definição. A administração das coisas do Estado pertence à esfera de atuação dos líderes religiosos.
Repito, é uma engenharia política cujo desenrolar vale a pena ser acompanhado.
O problema do Isla e democracia, ou melhor dizendo, um estado democratico de maioria islamica ou como colocou o Josue, a dificuldade de separar estado e religiao eh que no islamismo ha uma lei - preceitos que devem ser seguidos dia a dia. Nao eh apenas uma serie de codigos que ditam como Deus (ou seja la como se chame) deve ser louvado. Eh uma serie de leis que implicam em coisas que - para um ocidental - nao tem nada que ver com religiao. Como e com o que se vestir, com quem, como onde e por que transar, como, com quem, para quem e onde trabalhar e assim por diante. E as leis nao estao apenas escritas em livros antigos. Sao revisadas constantemente (vide o post sobre os fatwas abaixo). Isso significa que quem tem o poder religioso, tem o verdadeiro poder sobre o povo. O que o mullah diz de uma forma ou outra eh a verdadeira lei.
Em Dubai saiu uma fatwa que dizia que era contra o isla cruzar sinal vermelho. Resultado: 98% dos acidentes causados por esse tipo de infracao foram reduzidos - depois do governo ter tentado de tudo.
E como quem tem as maos nas redeas tem como lei numero um reforcar a manutencao do poder - bem, fica dificil um governo separado da religiao. Ou voce eh a religiao e assim governa, ou voce eh uma ditadura laica, ou tenta um compromisso com o clero. Eh instavel, trabalhoso, mas espero que a ultima opcao prevaleca por tempo suficiente - pelo menos ate o mundo acabar, o que eh logo, logo de qualquer maneira.
Pedro,
Achei sua leitura das eleições turcas para lá de superficial. Eu como fã da Turquia diria que não foram observados inúmeros pontos, entre eles o fato de que apesar de ter aumentado a fatia de votos, o AK deve receber menos cadeiras do parlamento. Como diziam alguns analistas o AK tinha duas opções, uma vitória catastrófica ou um governo enfraquecido, obrigado a negociar com a oposição. Um país polarizado é um pais em perigo e Erdogan parece ter aprendido com o erro da indicação do Gul. Eu concordo com aqueles que apostam em um candidato tragável ao AK e aos demais partidos. É isso ou o exílio e a ficha parece já ter caído…
O resultado, longe de negativo, parece ser tudo o que a Turquia precisa nesse momento onde o poder econômico está migrando de industriais urbanos para uma burguesia “islâmica”. É tempo de mudança, e a Turquia sabe que seu crescimento tem mais a ver com a Oeste do que com o Leste. Foi assim no passado e continua sendo assim no presente.
A Turquia foi e pelo visto continua a ser, o epicentro do mundo.
Anrafael,
Toda religião monoteista é teocrática. O judaismo nos últimos séculos tem demonstrado essa faceta com menos intensidade mas um Talmudistão não é muito diferente de um governo Islamico ou a Idade Média européia. Cruzados, bulas Papais, Ordem dos Hospitalários… mudam os nomes mas no fundo religião e Estado têm muito mais a ver do que nós queremos assumir e daí surge a necessidade de separação. E a necessidade é mútua caso contrário ao invés de terminarmos como o Irã, acabamos como uma China, Cuba, URSS, etc…
Rabellão,
Lembremos que a grande maioria dos países islamicos têm poucas décadas de independência, alguns tên apenas 40 anos.
O Brasil com mais de 100 anos não se acertou direito, imagine esses países.
Gabriel,
Toda religião diz que vc deve se vestir adequadamente, a diferença com o islã é que muitas pessoas seguem a risca, no ocidente não.
Andre Fucs // 24/Julho/2007 às 4:23
Amei esse comentário!
Obrigado Walid. :-)
Fico feliz.
kkkkkkkkkkkk…o tal do Dino foi patetico…consegue saber por uma foto se a mulher ja menstruou ou nao…ahahahahaha…eu vejo coisa nesse blog…a lista de comentaristas eh a mais surreal possivel..so abobrinhas…
É verdade que a separação entre religião e estado não se dá nos níveis que gostaríamos, vide tentativas de interferência no ensino de ciências nas escola ou o namoro das autoridades com o líder religioso momentaneamente conveniente.
Mas uma coisa é essa tensão, outra é o estabelecimento de uma religião oficial e a imposição de leis baseadas na doutrina expressa pelo texto básico do credo. Ou, pior, como alguns se arvoram a interpretar.
Essa é uma encruzilhada, tal como, igual você insinuou, André Fucs, a Turquia parece ser a encruzilhada do mundo.
Mas ninguém paga, pelo menos previamente, nada para ser otimista. Torçamos, pois, para que a Turquia encontre o almejado equilíbrio e que ele influencie o restante do mundo islâmico.
Bom, aí tá parecendo utopia, mas …
Dino: Primeiro, se vc reparar na foto, ela não é a única mulher sem hijab.
Segundo, pô, vc imagina uma menina de 12 anos andando de jeans e camiseta baby-look em Meca?
PD, e digo mais…essa ai nao so ja menstruou como ja deve ter visto o “passarinho verde”…ahahaha…e varias vezes…Dino, te interna, rapaz…
Abstrato,
Eu não achei nada patético o comentário do Dino.