O Islã à moda do Partido AK da Turquia

Europa · Islã · Oriente Médio · 23/07/2007 - 17h57 - 30 Comentários

O Exército turco ameaçou intervir caso o governo do premiê Recep Tayyip Erdogan não convocasse eleições. O motivo: com a saída do atual presidente, Erdogan queria que seu braço direito e atual ministro do exterior, Abdullah Gul, assumisse o cargo. (Lá, é o premiê quem indica o presidente.)

Desde os tempos do fundador da República Turca, o general Mustafa Kemal Atatürk, o exército é o braço laico do jogo político nacional. Atatürk modernizou a Turquia. Impôs vestes ocidentais, trouxe as primeiras gráficas – mas era um ditador. Espécie de Getúlio Vargas umas décadas antes. O exército tomou apego pelo poder e muitos, por lá, ligavam os militares à alternativa a um governo islâmico.

Nas últimas eleições, o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AK), chegou ao poder. É um movimento islâmico. No pleito de domingo, o AK ampliou sua participação – de 34% da última eleição para 47%, agora. Terá quase metade do Parlamento e Erdogan ganhou autoridade para apontar quem quiser para o cargo que bem querer. Foi o povo quem o decidiu.

A foto do New York Times, aí em cima, não está aí à toa. A menina bonitinha e sem lenço na cabeça que celebra a vitória do AK, vestida assim com camiseta justa, seria presa na Arábia Saudita. É este tipo de governo islâmico que existe na Turquia.

Não se trata de um partido urbano. Pelo contrário. O partido tem por base uma elite comerciante que, vinda do meio rural, migrou para as cidades após o boom econômico turco dos anos 1980. É um partido de classe média. O governo melhorou a economia do país, ampliou os laços de comércio com Israel, está trabalhando para cumprir tudo o que lhe pede o FMI. Muda as leis conforme lhes exige a União Européia, para ter chance de entrar no bloco político e econômico.

Erdogan tem apoio popular, mas a mulher de seu candidato a presidente usa um hijab. Isto mete medo na Turquia urbana e cosmopolita das cidades; e mete medo no exército, com suas fortes tendências golpistas. Em seu discurso de vitória, Erdogan diz que respeitará os eleitores que não votaram no AK. E que considera que suas opiniões diferentes são o que dá cor para a democracia nacional.

Talvez. A trupe laica respira fundo. Se o AK tivesse angariado dois terços dos votos, teria permissão para mudar a Constituição do país. Numa próxima eleição, pode acontecer. Mas será um medo infundado? Nada do que o atual governo fez realmente indica a intenção de construir um governo islâmico. É um partido que tem religião mas, a princípio, governa de forma laica.

O New York Times sugere que é o sucesso econômico do governo de Erdogan que motivou seu sucesso eleitoral. Faz todo sentido. O exército desconfia, e persistirá desconfiando, mas a princípio parece estar sem autoridade para lançar mão de um golpe. Os governos da União Européia, que têm de lidar com uma população cada vez mais anti-islâmica e abertamente preconceituosa, desconfia igualmente.

Erdogan governa para os turcos e para fora, coisa que não é nada fácil. Tem de agradar a todos sem jamais perder sua identidade religiosa, que define seus eleitores de raiz. Mas tem uma chance fantástica nas mãos: o de redefinir para o mundo um governo islâmico democrático.

Seu principal problema está ao sul. São os curdos que, incentivados por movimentos mais radicais no Irã e no Iraque, querem separar-se. Mas, nesta eleição, um número razoável de curdos concorreu e se elegeu para o parlamento. Esta é outra mudança que poderá fazer bem à Turquia.

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