Reino Unido quer proibir Tintim

Europa · HQ · Pop · 12/07/2007 - 17h36 - 182 Comentários

A Comissão pela Igualdade Racial, do governo britânico, pediu que as livrarias interrompam a venda de Tintim na África, segundo álbum em quadrinhos de uma das séries mais populares do mundo.

O livro é racista. Profundamente racista. Colonialista ao limite. Publicado em 1930, em Tintin au Congo negros são burros qual portas e são chamados de macacos. O álbum não é sequer particularmente bom: é uma obra menor na coleção ilustrada e redigida por Georges Remi, que se assinava Hergé.

No Reino Unido, Tintim na África é vendido entre os livros adultos, não entre os juvenis, justamente por conta do conteúdo racista. Traz na capa um alerta. Já velho, antes de morrer, Hergé falou da obra. “Quando jovem”, disse, “fui muito influenciado pelos preconceitos e estereótipos burgueses do tempo.” Ele listava Tintim na África entre seus pecados de juventude.

Hergé é autor de algumas das coisas mais geniais e profundas da história dos quadrinhos. Inclua-se na lista sua obra prima, Tintim no Tibete, na qual o jovem repórter embrenha-se pelas montanhas geladas na tentativa de encontrar Chang, seu amigo chinês, único sobrevivente de um acidente de avião. O livro, de 1960, é místico, orientalizado, respeitoso – tolerante e fascinado com o encontro de culturas distintas.

O governo britânico não está censurando: pede que as livrarias cooperem interrompendo a venda. Tintim na África faz parte de uma coleção de 23 álbuns. Se é mais imaturo – e é – também é um retrato de como a burguesia européia via o resto do mundo nos anos 1930.

Se o racismo nos incomoda hoje, se mesmo racistas envergonham-se de demonstrar o que pensam, é por conta de tragédias e lutas que, entre o Holocausto e Luther King, remodelaram nossa percepção do mundo. Esquecer que o racismo era natural há oitenta anos é desdenhar do esforço envolvido em dominá-lo. Se deixamos de ler os registros cotidianos daquele tempo – como Tintim na África –, estimulamos este esquecimento. Nenhuma obra deve ser lida ignorando a época na qual foi escrita.

O intervalo entre Tintim na África e Tintim no Tibete mostra ao leitor de Hergé a mudança do autor. Certamente ele não seria lembrado se tivesse deixado apenas aqueles primeiros álbuns.

Mas como cresceu entre um e outro.

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