Alan Johnston, o clã Dagmoush e a famíla Soprano de Gaza

Islã · Israel e Palestina · Terror · 2/07/2007 - 18h10 - 96 Comentários

Na manhã desta segunda-feira, o Hamas mandou prender Abu Khatab Maqdis, porta-voz do Exército do Islã, e mais dois membros do grupo. É uma tentativa de pressionar pela libertação do jornalista Alan Johnston, da BBC de Londres, seqüestrado em março.

Agora que a Palestina está dividida, o Fatah na Cisjordânia, o Hamas em Gaza, é hora de compreender a política que rege Gaza. É uma política de clãs, fortemente patriarcal e um quê primitiva. Para que o Hamas tenha alguma chance de sucesso perante a população, é imprescindível que consiga controlar a máfia local.

O Exército do Islã pertence ao mais poderoso destes clãs, o Dagmoush. A estimativa é que entre a família Dagmoush e aqueles que dependem diretamente dela, soma-se 15.000 pessoas. Atualmente, o grupo é liderado por Mumtaz Dagmoush, que tem um discurso islâmico radical e parece estar fazendo contatos com grupos como a al-Qaeda.

Talvez.

Tanto no Hamas quanto no Fatah dizem que o discurso é da boca para fora e as preocupações islâmicas do clã Dagmoush nada têm de sinceras. São mafiosos. Sua intenção é ganhar dinheiro e poder através do crime. Um dos indícios seria o resgate que, corre pelas ruas, eles cobraram inicialmente: algo por volta de 1 milhão de dólares. A política em Gaza sempre foi tocada na base da negociação com estes clãs. Paga-se eles, há paz.

Quando o racha entre Fatah e Hamas ficou evidente e o dinheiro para a Autoridade Palestina foi cortado, faltaram recursos para subornar a máfia local. Daí, incrementou-se a violência. O discurso interno do Hamas é de que vai resolver o problema. É tudo o que a população deseja.

Neste cenário, Alan Johnston virou uma arma particularmente importante para os Dagmoush. O Hamas os quer desarmados e fora do jogo de influências. Ao mesmo tempo, o Hamas quer legitimidade internacional, que é a única coisa que pode garantir-lhe a existência e o comando palestino, no futuro. Para isto, Johnston vivo e livre valerá pontos preciosos perante os britânicos.

(Evidentemente que o resultado imediato não será reconhecimento do Hamas ou do governo de Gaza. Mas é o tipo da boa vontade que abre diálogos.)

Johnston é, portanto, o que garante aos Dagmoush que serão mantidos intocados. E algo, hoje de manhã, começou a mudar. Três de seus membros estão presos. Normalmente, a retaliação dos Dagmoush seria ir para a rua, submetralhadoras em punho, para matar uma meia dúzia e espalhar terror. A ver o que acontecerá. Gaza está diferente, agora.

Resta saber em que consiste esta diferença.

Ainda sobre o assunto:

  1. Alan Johnston livre O repórter Alan Johnston, da BBC, seqüestrado há quatro meses em Gaza, está livre. Johnston apareceu com o líder do...
  2. Gaza: um ano de governo Hamas O New York Times traz uma excelente reportagem sobre como ficou Gaza sob o governo do Hamas, um ano após...
  3. Em Gaza, a vitória do Hamas Neste momento, Ismail Haniyeh, líder do Hamas, anunciou que Gaza e o Hamas não quebrarão. “Nossa vitória sobre os sionistas...
  4. Gaza como ela é Muitas vezes, nos deixamos levar por estereótipos imaginados para tecer considerações a respeito de certos lugares. É por isso que...
  5. E Israel entrou com as tropas em Gaza Durante uma semana, os líderes do Hamas prometeram aos palestinos de Gaza que, se Israel ousasse invadir por terra, o...