O papa é pop?

Alemanha · Posts · 7/02/2007 - 00h01 - 231 Comentários

Há muito isto não acontecia: mas os discursos do papa são comentados. Acontece por conta da polêmica – caso das críticas ao Islã. Acontece quando fala de amor – sua primeira encíclica; se abre um grupo de discussão a respeito de uso de camisinha, discute-se o que Bento 16 tem a dizer.

Não é a mera repercussão do que pensa o Papa. Isto sempre houve.

No caso de Bento 16, os argumentos do papa são discutidos pelos principais editorialistas europeus, principalmente na sua Alemanha natal onde a norma sempre foi, em grande parte, a imprensa ignorar a existência de religião como se estivesse (talvez esteja) um quê abaixo da razão.

A tese, não sem fundamentos, é da revista alemã Der Spiegel: Joseph Ratzinger é o papa que os intelectuais gostam.

E isto é uma surpresa – trata-se de um reacionário ao pé da letra.

Ele pôs fim à Teologia da Libertação. Ele despreza rock e música pop mesmo que acompanhe alguma reza. Ele não gosta de missas ecumênica e recusa a quem se divorciou a comunhão. Ele fraterniza com os discípulos anti-modernistas [do cardeal Henri] Lefebvre, com os anti-aborto, mas padres gays são banidos dos seminários. E, para terminar, todo seu poder é expresso na voz ligeiramente afeminada de um homem idoso: ?Cari fratelli e sorelle…?

Então o que é, em Bento 16, que tanto atrai intelectuais? Primeiro, ele respeita idéias, respeita pensamento e produção acadêmica. Antes de tudo, ele próprio é um acadêmico. Então, se acaso é o homofóbico que se veste carregado de jóias, também é um homem capaz de conversar com ateus. Bento 16, diferentemente de seu antecessor, não fala de fé como um processo místico. Para ele é um processo racional. Falar de razão o põe no mesmo campo dos homens de idéias. Argumentos, eles respeitam mesmo que discordem.

Mas há algo além: a principal questão do papa é o relativismo que ele acusa existir na sociedade.

Na Era Pós-Moderna, tudo estava mais ou menos ok. Os valores eram relativos e acreditávamos que isto era bom. Em setembro de 2001, esta crença foi questionada. Não havia mais espaço para ironia.

Como uma verdade pode existir numa sociedade pluralista? Joseph Ratzinger ponderou a respeito desta pergunta toda sua vida. E ela jamais foi tão relevante quanto hoje.

Que não se tenha dúvida: o discurso é reacionário, profundamente conservador. A ?relativização? é uma busca de tolerância. Numa troca de cartas, certa vez, o cardeal Carlo Maria Martini perguntou a Umberto Eco como era possível ter ética sem uma crença nalgo mais profundo.

Eco respondeu que há um quê em nós humanos que dita esta ética universal. Todos sentimos dor, então infligir dor é antiético. Todos andamos – então restringir o caminho que escolhemos seguir é antiético. Seguindo seu raciocínio àquilo que é mais básico no Homem é possível chegar a valores universais que nos sirvam de mapa. Que expliquem o que é tolerável numa cultura diferente – e o que não é tolerável.

Se resolve o problema?

Evidentemente que não. Não resolve o aborto, por exemplo, enquanto não chegarmos – se é que é possível – a uma convenção universal a respeito do momento do início da vida.

Ratzinger defende seu ponto de vista e é um papa relevante: fala de questões cruciais do tempo. Fala com autoridade, com honestidade intelectual. O que não quer dizer, de forma alguma, que esteja certo.

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