Palestinos que se matam

Israel e Palestina · 14/12/2006 - 00h01 - 268 Comentários

Foram pelo menos 60 tiros – só uma das crianças, de seis anos, levou 10 na cabeça. Foi assim, fuzilados dentro de um carro por homens mascarados, que morreram os três filhos de Baha Balousheh, em Gaza.

Palestinos matando palestinos barbaramente – há que ter um significado nisto.

Balousheh é do Fatah, partido do falecido Yasser Arafat e do atual presidente, Mahmoud Abbas. Homem do serviço de segurança, foi responsável durante muitos anos pela vigília de Gaza. Gaza, naturalmente, reduto do Hamas.

Hamas, o partido do premiê Ismail Haniyeh, tem um braço político – no poder – e outro, militar, não raro envolvido com terrorismo. Foi por mágoas passadas, rapidamente se levantaram vozes, que mandaram matar os filhos de Balousheh.

O Hamas nega.

Tentando desfiar o nó que o noticiário pouco explica. A polícia sugere que talvez fosse o pai, não os filhos, o alvo do atentado. Parece pouco provável. As crianças estavam no carro de sempre, na hora de sempre, às sete e pouco a caminho da escola. Quem matou sabia quem estaria lá. Coisa de máfia, mesmo.

Dividir a briga entre Fatah e Hamas é simplista. Gaza é uma terra à parte onde, mais que brigas partidárias, os conflitos são determinados por clãs. A política, lá, não é como a da Cisjordânia.

Ontem, foi assassinado Bassam al-Fara, juiz da Corte Islâmica, líder local do Hamas em Khan Yunis. Este é um dos principais Campos de Refugiados de Gaza e al-Fara era do clã que mantém o controle e a lei local. Juiz, pois é.

Como costuma acontecer nestas horas, em Gaza a divisão artificial entre partidários de Fatah e Hamas tem mais a ver com os conflitos entre clãs. A briga é local, nada a ver com a política ‘nacional’ palestina.

São palestinos contra palestinos e a briga entre tribos alcançou um nível de barbárie inaudito em tempos modernos. Era assim antes, mas disfarçavam civilidade. Acontece: a força policial israelense que havia saiu, a Autoridade Palestina sob comando do Hamas não a substituiu. O tecido social que se mantinha precariamente organizado ruiu. Estão brigando pelo poder.

Não é impossível que uma guerra civil estoure em Gaza mas a repercussão deste conflito na Autoridade Palestina é mais preocupante.

Eleito em janeiro deste ano após uma lavada do Hamas nas urnas, Ismail Haniyeh ainda não conseguiu montar um gabinete. Quer dizer: fora os deputados do Hamas, não tem apoio no parlamento que lhe garanta metade dos votos mais um. Como cabe aos regimes parlamentaristas, o presidente pode interceder e convocar novas eleições se considerar que os vitoriosos do último pleito não conseguiram costurar alianças para por de pé um governo.

Mahmoud Abbas deve convocar novas eleições no sábado.

Será um jogo completamente diferente. Em finais de 2005, os palestinos estavam fartos da ampla corrupção instaurada pelo Fatah. Agora já tiveram o gosto do Hamas no poder. A intransigência que leva o governo Hanyeh a recusar o reconhecimento de Israel causa um estrangulamento econômico.

É fácil imaginar a Palestina como uma entidade mais ou menos uniforme mas está longe de ser isso. Enquanto Gaza é esta província onde critérios de uma cultura nômade ainda persistem, na Cisjordânia há pobreza mas também requinte intelectual e um dia-a-dia contemporâneo. A marca do governo Hamas, lá, é do êxodo de cérebros, principalmente para Canadá, Jordânia e outros países do Golfo Pérsico.

Não podia ser diferente: enquanto governo, o Hamas continua o mesmo de sempre. Não bastasse a economia estagnada, recusa-se a tirar das ruas sua própria milícia criminosa. Não é possível mandar na polícia e ter milícia ao mesmo tempo.

A opção para o eleitor palestino que quer o fim da dor de cabeça, só isso, não é nada fácil. Enquanto este eleitor pensa, o que era para ser Palestina está começando a se dissolver.

Israel periga ter um novo problema na vizinhança: pior que uma guerra civil, uma briga raivosa e fratricida entre gangues está no pico de estourar. Para um mundo que se acostumou a pensar no conflito com o maniqueísmo do judeus versus palestinos, as coisas começaram a ficar um pouco mais complicadas.

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