O canalha morreu livre

América Latina · História · 10/12/2006 - 17h00 - 125 Comentários

Augusto José Ramón Pinochet Ugarte, o ex-ditador chileno, morreu de infarto do miocárdio às 15h15, hora de Brasília, no Hospital Militar de Santiago do Chile. Os médicos ainda tentaram reanimá-lo durante uma hora, mas um edema pulmonar agudo piorava a situação. Pinochet tinha 91 anos.

Morreu um homem livre.

A Justiça do Chile anunciou a suspensão de sua prisão domiciliar no último dia 4. Para os parentes de suas vítimas o que resta é o vazio. O homem morreu livre, sem ter sido condenado por seus inúmeros crimes. Para o resto do mundo, Pinochet persistirá como o principal ícone das ditaduras de direita latino-americanas. Dos militares que tomaram o poder sul-americano entre os anos 60 e 70, ele foi o que mais tempo permaneceu na presidência, entre 1973 e 90.

É uma imagem singular, as suas no poder: o estereótipo de um ditador mau – Pinochet era um homem mau – os enormes óculos escuros, o rosto sempre amarrado, a farda militar. Mais de 3.000 pessoas morreram por conta de suas ordens.

Seus crimes começaram em 1973 com o que ficou conhecido com a Caravana da Morte. Nos meses seguintes ao Golpe que derrubou a democracia republicana do Chile, por ordens de Pinochet, 74 pessoas que se opunham à ditadura foram presas e, provavelmente, executadas. Estão na lista de desaparecidos. Ponha-se na conta de Pinochet, também, o assassinato num atentado a bomba em Buenos Aires do general Carlos Prats, que o antecedeu na chefia das Forças Armadas. Augusto Pinochet, durante os anos 70, foi um dos principais articuladores da Operação Condor, que reuniu seis ditaduras no esforço de localização, tortura e execução de opositores. A operação Colombo custou a vida de 119 oposicionistas.

Na lista dos vários processos que são movidos contra Pinochet no Chile e na Europa figuram 3.197 casos de assassinato.

O governo Pinochet, como todas as outras ditaduras militares do continente, foi também corrupto. Em contas bancárias localizadas em nome do ditador há pelo menos 27 milhões de dólares. Morreu livre e rico.

Teve aliados que o protegeram até o fim, entre eles o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, o ex-presidente dos EUA George H. Bush e a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher.

Mas nem tudo é ruim na história trágica de Augusto Pinochet. Quando um juiz espanhol ordenou sua prisão, em 1998, ele foi preso – algo inédito no direito internacional. A Justiça espanhola pode fazê-lo por conta dos pouco mais de noventa espanhóis torturados durante a ditadura e a batalha legal o manteve trancado numa casa alugada por 16 meses.

Nunca antes um ditador havia sido preso fora de seu país, sem pedido formal do governo de seu país, por crimes contra a humanidade. É um precedente jurídico que faz bem ao mundo.

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