O governo Bush caiu

EUA · Iraque · 14/11/2006 - 00h01 - 134 Comentários

Não foi pequeno o estrago feito pelas eleições parlamentares deste novembro, nos EUA: o governo George W. Bush caiu. Quem o substitui é o governo de George H. Bush. E se tudo parece retórica, não é. As teorias conspiratórias dos Michael Moores da vida podem enxergar uma família trabalhando para manter-se no poder, mas a coisa é mais complexa. Bush, o filho, representou até há umas semanas um grupo radical do Partido Republicano que esteve no poder durante o governo Ronald Reagan mas não no de seu pai.

Bush pai acaba de intervir no governo do filho. Agora entra a sua turma.

Passo-a-passo:

Há um nome chave, aqui, que é o do presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz. Ele é um dos principais proponentes da ideologia neoconservadora.

E há um ano chave e um documento chave: 1992, quando Wolfowitz era secretário adjunto de Estado e assinou com seu vice, Scooter Libby, um relatório que ficou conhecido como a Doutrina Wolfowitz.

Ele propunha que, com o fim da Guerra Fria, os EUA deviam agir como a única superpotência do mundo – e que só agindo como tal poderiammanter-se no ápice. Agir como superpotência quer dizer ignorar agências internacionais – ONU inclusa – e atuar com pesada mão militar unilateralmente.

Fundamentalmente, era uma doutrina moral: os EUA, para Wolfowitz, não ganharam a Guerra Fria à toa. Ganharam por representarem uma ideologia superior e que, como tal, tinham o dever de intervir quando e onde considerassem adequado; ter o monopólio da verdade o permite.

Sua doutrina micou. Gente como o general Colin Powell e o secretário de Estado James Baker, no governo Bush pai, consideravam a visão delirante, radical e perigosa. Durante a Guerra do Golfo, foi de Baker a decisão de não continuar a batalha até a derrubada de Saddam Hussein. Tinha poucos argumentos bem fundamentados: o primeiro, que os EUA agiam com permissão da ONU e sua missão era tirar o Iraque do Kuwait, não mais. Isto feito, missão cumprida; segundo, que o Iraque sem Saddam poderia implodir e, numa seqüência de mil conflitos internos, sabe-se lá em que tudo poderia terminar.

Só que George H. Bush perdeu sua campanha de reeleição para o desconhecido governador do Arkansas, William Jefferson Clinton. Os democratas explicavam sua vitória com um slogan simples: é a economia, estúpido. Desempregado demais, dinheiro de menos, elege-se a oposição. Para muitos republicanos, ainda encantados com a economia de Reagan, não podia ser isto. O erro estava na conduta da guerra do Iraque. Os norte-americanos queriam ver Saddam preso e seu governo não ofereceu isto. Então, conforme os republicanos mergulharam nos seus oito anos longe da Casa Branca, tornaram-se para quem já falava de Iraque fazia tempo.

Paul Wolfowitz. Ele, assim como seu vice Scooter Libby, assim como o ex-secretário de Defesa adjunto Richard Perle, sempre tiveram o Iraque em vista. Desde os anos 80. Quando, nos tempos de Reagan, uma obsessão anti-Irã levou Donald Rumsfeld ao Iraque para financiar a guerra de Saddam contra os aiatolás, Wolfowitz e os seus já eram contra.

Acreditavam que o Iraque era um país chave e perigoso. Chave na geopolítica por causa do petróleo e porque de lá havia acesso fácil para qualquer ponto importante do Oriente Médio: para a Síria e então Líbano, para a Arábia Saudita, para o Irã. Controle do Iraque, para os neoconservadores embrionários, permitiria aos EUA controle sobre todo o Oriente Médio. No entanto, a ideologia nacionalista e pan-árabe que trazia alguma proximidade entre Egito, Síria e Iraque representava um perigo já que facilitava uma aproximação com a União Soviética e, se crescesse, sugeria independência demais.

Ridicularizada quando lançada em 92, nos anos fora do poder a Doutrina Wolfowitz foi incrementada por uma ong chamada Projeto para o Novo Século Norte-americano e, além dos intelectuais que a propunham, ganhou novos adeptos. Dentre eles, gente do núcleo duro do poder no Partido Republicano, como Dick Cheney e Donald Rumsfeld. A Doutrina Wolfowitz desenvolvida descrevia como os EUA deviam transformar sua postura política externa ao mesmo tempo em que reformava o Pentágono, adaptando o poder militar às novas necessidades. Uma das frases é um primor: ‘o processo de transformação, mesmo que traga mudanças revolucionárias, será provavelmente longo a não ser que algum evento catastrófico e catalisador aconteça – algo como um novo Pearl Harbor’.

Quando George W. Bush chegou à presidência, não cercou-se de gente como James Baker, nome fundamental do pragmatismo republicano que marcou a política de seu pai. Pelo contrário: foi atrás dos neoconservadores que tinham pronta uma visão de mundo, uma justificativa para a derrota de Bush pai e uma estratégia de postura internacional do país no futuro. A Doutrina Wolfowitz virou a Doutrina Bush.

O novo Pearl Harbor aconteceu. Donald Rumsfeld, convertido à nova ideologia, queria partir contra o Iraque mas naquele momento vozes como a do secretário de Estado Colin Powell ainda tinham algum peso. Foram ao Afeganistão. Não durou muito.

Aí foi o que foi.

A revista Vanity Fair de novembro apresenta um longo artigo descrevendo o que dizem os neoconservadores agora que todas suas previsões tão exatas fracassaram retumbantemente comprovando os receios do velho Jim Baker. Richard Perle, por exemplo, se sente traído pela Casa Branca. Não é que o projeto para o século norte-americano dos neoconservadores estivesse errado; o governo é que foi demasiado incompetente. Donald Rumsfeld é que foi um mau gerente. Bush filho é que não tem astúcia suficiente.

Em janeiro, enquanto o governo ainda negava que o Iraque era um atoleiro e que não tinha a mais vaga idéia de como lidar com a bagunça, James Baker foi nomeado pelo Congresso presidente de um grupo de estudos composto por quatro democratas e quatro republicanos para produzir um relatório com sugestões.

Com a derrota eleitoral, seu comitê acaba de ficar mais importante. Concentra as esperanças de que uma solução é possível. Baker é macaco velho e já disse que solução a curto ou médio prazo não existe. O que ele não disse, mas já pensa faz 15 anos, é que os EUA não tinham nada que se meter no Iraque para derrubar Saddam. Mas o estrago está feito.

O núcleo de poder do governo Bush pai acaba de intervir no governo de Bush filho. O homem que substitui Rumsfeld é homem de Baker, que supervisiona. E, enquanto os neoconservadores lutam para salvar um mínimo de suas reputações distanciando-se da Casa Branca que seguiu tudo o que sugeriram, o centro do Partido Republicano tem preocupações maiores e, como cabe à turma, pragmáticas. É a eleição de 2008.

Se um jeito não for dado, termina se produzindo um presidente democrata com maioria na Câmara e Senado.

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