Há 39 anos

América Latina · Pop · 17/10/2006 - 00h01 - 274 Comentários

É no mínimo com algum desconforto que se assiste ao clipe Hasta siempre, da cantora francesa Nathalie Cardone.

A música é antiga, do compositor cubano Carlos Puebla, composta no dia em que Ernesto Guevara deixou o governo para emaranhar-se em mais uma guerrilha libertária. É uma declaração de amor política, também peça de propaganda um quê romântica, que termina com os versos Como junto a tú seguimos y con Fidel te decimos: hasta siempre, comandante!

Fez algum sucesso nos anos 60, foi gravada pelo próprio Puebla, aqui no Brasil por Chico Buarque, recentemente pela trupe do Buena Vista Social Clube. A roupagem pop no clipe de Cardone, tendo por cenário a Bolívia com Che morto, é estranhamente mórbida. É sensacionalizar o terrível. E como fica datado, horrivelmente datado, o verso que sugere que estamos com Fidel. Alguém, fora os dinossauros, ainda realmente está com o mais antigo ditador em curso?

Quem pinçou Juan Pablo Meneses, repórter do diário argentino El Clarín, que está blogando uma série sobre a transformação da imagem do Che de guerrilheiro a ícone pop. Jon Lee Anderson, autor de sua melhor biografia, arrisca uma explicação:

O fenômeno do Che-Chic existe nos países do primeiro mundo, os industrializados, aqueles onde o Che representa algo alheio a sua realidade e onde o fetichismo e a parafernália do Che (relógios, pôsteres etc.) é principalmente uma expressão cultural do retrô-chic romântico, exótico. São figuras assim, em menor grau, Mao e mesmo gente do pop como Lennon. Coincide com a idéia da moda de que Você é o que você veste. Mas creio que no resto do mundo, onde há pobreza aguda, carência de liberdade política, social e econômica e do Estado de direito, o Che continua sendo um símbolo potente de revelião e desafio ao status quo, um herói que clama por emulação.

Neste outubro, faz 39 anos que Guevara foi assassinado.

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