O mundo acaba de mudar

Coreia do Norte · 9/10/2006 - 00h34 - 182 Comentários

De acordo com a rede de tevê CNN, o governo da Coréia do Sul detectou um tremor de 3,5 na Escala Richter com epicentro na vizinha ao norte. É pouco para uma ogiva nuclear – mas este era para ser um teste no fundo, bem no fundo, da terra. Então não é possível dizer de presto que nada aconteceu.

O que há, no momento, é a afirmação do governo da Coréia do Norte de que, desde este domingo, o país se considera uma potência nuclear.

Nenhum outro país reconheceu oficialmente que o teste aconteceu, e talvez isto demore um pouco. Neste momento, na Coréia do Sul, no Japão, na China, na Rússia, nos EUA, computadores estão sendo alimentados com tantos dados quanto puderam ser captados para tentar avaliar o que aconteceu de fato.

Impossível descartar a possibilidade de um blefe – é cedo. Mas não demoraria muito mais que algumas semanas para ter certeza de que teste não houve, então seria estranho que fosse um blefe. Além do que, não é tão difícil fazer uma ogiva nuclear. A tecnologia é antiga e razoavelmente conhecida. Os problemas de engenharia, que poderiam demorar até uma década para serem resolvidos partindo-se do zero, estiveram à venda no mercado negro não faz muito tempo, cortesia do Paquistão. E a Coréia do Norte foi uma das compradoras.

O ditador Kim Jong Il é um inconseqüente megalômano e obcecado pela própria imagem. Também está lutando pela manutenção de seu regime. Desde que foi incluído pelos EUA na trinca do Eixo do Mal, sabe que corre risco. É o mesmo princípio do Irã, que jura de pés juntos que não quer a bomba – mas todo mundo acha que quer.

Foi um bom golpe político interno, por parte da administração Bush, inventar o conceito do Eixo do Mal. Pegou bem perante o eleitorado. A médio prazo, no entanto, provocou uma corrida nuclear. Não há outra maneira de ler a coisa: depois de o Iraque ser invadido, quem está no comando nos dois outros países só pode entender que o risco de ataque é concreto.

Com a Bomba, o inimigo pensa duas vezes.

O caso norte-coreano é talvez mais delicado que o iraniano. Embora ambos os países vivam ditaduras, ditaduras não são iguais. A do Irã está sujeita às flutuações da opinião pública. A classe empresarial nascente, principalmente por conta do bom comércio entre seu país e a China, que cresce a cada ano, não gosta da instabilidade e dos riscos de sanções econômicas que o governo Ahmadinejad traz. E se o conselho dos Aiatolás que dita as regras não corre risco de perder o poder, salvo revolução que o deponha, presidentes moderados podem vir nas próximas eleições. Não fosse a ameaça de invasão dos EUA, aliás, o ex-prefeito anti-semita de Teerã dificilmente teria sido eleito.

Na Coréia do Norte é diferente. O ditador manda, manda sozinho, é filho do ditador passado e nada, nem a extrema pobreza de seu povo, indica que sairá tão cedo. Ninguém está mais preocupado do que Japão e Coréia do Sul. A tecnologia de mísseis da Coréia do Norte é instável, os testes recentes indicam que talvez não consigam levar muito longe suas ogivas, mas este não é risco que alguém queira correr.

Principalmente o Japão. Bomba nuclear é muito pior do que sua mãe atômica. Mas os japoneses sabem do que a mãe é capaz. Fatalmente será inevitável que o país volte a estruturar seu exército, modificando a constituição imposta pelos EUA após a Segunda Guerra. E uma frota japonesa armada, por tradição agressiva e ousada, poderá impor uma corrida armamentista no Pacífico contra a China. É bem possível que os EUA gostem da idéia e, dificilmente, o Japão de hoje será como o de meio século atrás, que conseguia peitar o império chinês.

Mas teste nuclear mudou por completo o jogo político daquela região do mundo. Há um novo barril de pólvora no planeta.

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