Se há liberdade por aí

América Latina · História · 9/08/2006 - 00h01 - 172 Comentários

Houve um momento, quando vi Fidel pela última vez, na primavera, no estádio esportivo de Havana, no qual ele estava falando e falando e parecia não perceber o enorme zumbido na multidão. Todos estavam se movendo impacientes e conversando e dormindo abertamente com a exceção das pessoas ao seu redor. O nível de ruído era enorme. E eu estava chocado. Não lembro de ter visto algo parecido antes. Noutros tempos, todos ficariam sentados em silêncio respeitoso por um longo período.

Isto me fez lembrar da última aparição de Ceausescu na Romênia, quando ele apareceu na Praça Republicana e de repente parte da população começou a gritar. Dava para ver o rosto de Ceausescu ir da confusão à raiva e, finalmente, ao medo. Então ele deixa a sacada, vemos o helicóptero indo embora e repentinamente a revolução estava em rumo.

Naquele estádio em Cuba, não era assim, mas pensei O que aconteceria se uma única pessoa começasse a gritar? Mas a verdade é que os cubanos internalizaram sua apatia. Estão passivos. A maioria deles têm suas vidas mobilizadas pelas pequenas coisas, coisas sobre as quais nós no ocidente rico não costumamos pensar. Coisas como conseguir água o suficiente para hoje, ou conseguir o jantar, ou conseguir ir de A a B. Estas são coisas difíceis em Cuba e a energia da maioria das pessoas está ali. Eles vêm e vão em seus sentimentos de afeto, lealdade, obediência, repulsa e, em alguns casos, de emasculação relacionados a Fidel. A habilidade de mudar suas vidas lhes foi tirada.

Certos conceitos são importantes demais. Um dele é: que é liberdade?

À esquerda, há quem diga que quem não tem acesso a alimento, a teto, a educação, não tem de fato liberdade. Estão inteiramente corretos.

À direita, o discurso em voga determina que quem não vota, não tem o direito de falar o que pensa, não tem liberdade. Estão, também, inteiramente corretos.

E é claro que este é um estereótipo. Há quem à esquerda perceba a importância do direito ao voto e da livre expressão para a liberdade de fato, e há quem na direita tenha consciência de que comida, educação e teto são garantias que o Estado deve a seus cidadãos e que – não importa por que processo – se estes direitos não estão garantidos, não adianta ter eleições livres, pois liberdade de fato, esta não há.

As aspas acima estão numa entrevista feita pela redação da New Yorker com Jon Lee Anderson, autor de Che: uma biografia (Editora Objetiva). É um livro o qual a esquerda gosta de citar, embora o artigo de Anderson citado aqui há uma semana não tenha agradado a todos nesta esquerda. (A direita também não costuma gostar de ouvir que Israel está errado ao massacrar o Líbano; faz parte.)

Nada disto realmente importa, naturalmente, sua última frase é impecável. “A habilidade de mudar suas vidas lhes foi tirada.” Ela resume o que é falta de liberdade como muito pouca frase resume por aí.

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