Se há liberdade por aí
Houve um momento, quando vi Fidel pela última vez, na primavera, no estádio esportivo de Havana, no qual ele estava falando e falando e parecia não perceber o enorme zumbido na multidão. Todos estavam se movendo impacientes e conversando e dormindo abertamente com a exceção das pessoas ao seu redor. O nível de ruído era enorme. E eu estava chocado. Não lembro de ter visto algo parecido antes. Noutros tempos, todos ficariam sentados em silêncio respeitoso por um longo período.
Isto me fez lembrar da última aparição de Ceausescu na Romênia, quando ele apareceu na Praça Republicana e de repente parte da população começou a gritar. Dava para ver o rosto de Ceausescu ir da confusão à raiva e, finalmente, ao medo. Então ele deixa a sacada, vemos o helicóptero indo embora e repentinamente a revolução estava em rumo.
Naquele estádio em Cuba, não era assim, mas pensei O que aconteceria se uma única pessoa começasse a gritar? Mas a verdade é que os cubanos internalizaram sua apatia. Estão passivos. A maioria deles têm suas vidas mobilizadas pelas pequenas coisas, coisas sobre as quais nós no ocidente rico não costumamos pensar. Coisas como conseguir água o suficiente para hoje, ou conseguir o jantar, ou conseguir ir de A a B. Estas são coisas difíceis em Cuba e a energia da maioria das pessoas está ali. Eles vêm e vão em seus sentimentos de afeto, lealdade, obediência, repulsa e, em alguns casos, de emasculação relacionados a Fidel. A habilidade de mudar suas vidas lhes foi tirada.
Certos conceitos são importantes demais. Um dele é: que é liberdade?
À esquerda, há quem diga que quem não tem acesso a alimento, a teto, a educação, não tem de fato liberdade. Estão inteiramente corretos.
À direita, o discurso em voga determina que quem não vota, não tem o direito de falar o que pensa, não tem liberdade. Estão, também, inteiramente corretos.
E é claro que este é um estereótipo. Há quem à esquerda perceba a importância do direito ao voto e da livre expressão para a liberdade de fato, e há quem na direita tenha consciência de que comida, educação e teto são garantias que o Estado deve a seus cidadãos e que – não importa por que processo – se estes direitos não estão garantidos, não adianta ter eleições livres, pois liberdade de fato, esta não há.
As aspas acima estão numa entrevista feita pela redação da New Yorker com Jon Lee Anderson, autor de Che: uma biografia (Editora Objetiva). É um livro o qual a esquerda gosta de citar, embora o artigo de Anderson citado aqui há uma semana não tenha agradado a todos nesta esquerda. (A direita também não costuma gostar de ouvir que Israel está errado ao massacrar o Líbano; faz parte.)
Nada disto realmente importa, naturalmente, sua última frase é impecável. “A habilidade de mudar suas vidas lhes foi tirada.” Ela resume o que é falta de liberdade como muito pouca frase resume por aí.
Ainda sobre o assunto:
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Cristina - Seu comentário chega a ser desrespeitoso com milhares de pessoas que morreram nas águas do Golfo do México e das pessoas que morreram tentando pular o Muro de Berlim.
Ô, Anulado, se toca, mermão: a direita fala de Israel, sim, e defende Israel, sim.
Isto não quer dizer que Israel seja de direita, só que a direita seqüestrou sua causa. Também não nega o direito de Israel à defesa. Tampouco nega seu passado socialista. Ben-Gurion, infelizmente, não há mais.. há que lidar com a mediocridade reinante, como em todo o mundo, diga-se.
Cris e Realidade
1) Memórias do Cárcere - Graciliano Ramos
2) Cris, quem melhor definiu o que você talvez (talvez viu, não tenho certeza) foi o psiquiatra Victor Frankel, escrevendo sobre os campos nazistas pouquíssima liberdade que restava aos prisioneiros.
Atentos: ele nunca disse que era gostoso estar em campo de concentração, nunca negou os horrores do holocausto, que ele mesmo viveu, mas informa a todos que sempre há possibiliade de liberdade nos pensamentos, mesmo em situações extermadas, como a prisão em um campo de concentração.
Ele ensina que há sempre um modo de não nos tornarmos apáticos, já que este é o tema.
Mas já tem post novo.
Americano não dá visto de entrada nem para brasileiro … Tudo tem dois lados. Americano faz muro na fronteira com o México.
Doria,
Não imagino como se lhes poderia tirar algo que nunca tiveram. Nesse caso, os haitianos, por exemplo, teriam liberdade e os cubanos não?
Explique isso melhor!
Americano tá certo, errado tá é o brasileiro querendo expoliar a riqueza alheia.
Flávio: liberdade é direito de nascença.
PD, o atual governo de Israel não é de direita.
Vixe, o que voc? chama de direitos, e eu chamo de direitos fajutos, são na realidade privilegios.
PD.
Temos contudo que entender que “grades e muros não fazem prisões” para aqueles dotados meios intelectuais para digamos “viajar”.
O ser humano comunzinho, básico, limitado à mediocridade do dia via Jornal Nacional (quando muito) e novela (quase sempre) sente-se absolutamente preso.
O mundo deste homem é pequeno demais, cabe entre as 4 paredes de uma cela. Este homem, representante da imensa maioria dos homens é o que realmente deve mensurar o que é e o que não é liberdade
“Fernando, os conceitos não são mutuamente excludentes. É preciso comida, casa, educação ? mas também é preciso direito de falar o que pensa e de votar. Liberdade é o todo”
Oi Pedro, não precisa me ensinar isso. O meu comentário não foi dirigido para você, e sim para uma certa esquerda que diz que se o povo cubano come e assiste aula então é livre.
PD, aceito seu comentário reparador.
Agora ao lidar com a “mediocridade reinante” esta dicotomia esquerda/direita deixou de existir, como o molusco amnésico e a PTralha bem provou ao perpetuar as infâmias cometidas contra o povo por seus antecessores. Morreu a esperança! Viva Regina Duarte!
Hoje em dia não existe mais esquerda ou direita, mas sim os “de cima” e os “de baixo”.
Os de cima com a sucessão hereditária tal qual capitanias e os de baixo com os vale-fome na perpetuação da miséria e ignorância a sustentá-los.
Aliás Cuba é um belo exemplo de como não se deve fazer as coisas, tanto que nossos intelectualóides lhes tecem loas mas banham-se no Leblon, Varadero? Eu hein!!
. Mr X ? 10/08/2006 @ 8:52 am – ‘ou entao com pesadissimos impostos, como na social-democracia, de modo a que os que ganham mais sustentem os que nao trabalham ou ganham menos.’
Caro Mr.X, pesados impostos sociais democratas nós já pagamos aqui no Brasil, e não é de hoje que o nosso ‘leão’ é um dos mais famintos do mundo, só falta a social democracia chegar….e olha que se ela corrigisse esta brutal má distribuição de renda no País, eu só teria que continuar pagando, e confesso, com satisfação. Boa noite tenho de dormir agora, a liberdade de acordar tarde amanhã me foi tirada, e as dívidas e impostos me esperam,
bjs,
O conceito de liberdade suponhe o direito de escolha e o livre pensamento, estes negados em qualquer lugar chamado de “democratico e popular” todavia disse o Victor Hugo “A LIBERDADE DE UNS TERMINA ONDE COMENÇA A DOS OUTROS”. Se não existirem limites, estaremos sob o dominio da lei Darwiniana:Os bons se adaptamam e sobrevivem, os outros…..
Todo esse papinho de “avanços sociais”, “liberdade ou oportunidade? ó, dúvida…”, tudo isso é muito idiota e secundário. O principal é que há pessoas presas, torturadas, fuziladas em CUdemundoBA simplesmente porque pensam diferente. Quem apóia ou simpatiza com Fidel e seus gângsters está na verdade apoiando isso. E um jornalista que se esquece de incluir isso nas suas “análises”, está colaborando com isso. Seja homem, Pedro Dória, faça um trabalho de verdade sobre o verdadeiro fato jornalístico em Cuba: Gente presa em condições sub-humanas, gente torturada. O resto é papinho.
Nassau - Um dos grandes motivos da má distribuição de renda no Brasil é justamente a carga tributária. Talvez seja o maior motivo. Só que não falam isso. Dizem que a má distribuição de renda é culpa dos ricos…
É mais fácil falar isso. Dá mais votos e mantem os impostos nas alturas… Pagamos todos, queitinhos e bem comportados.
Ufa, Pablo, valeu.
Pensei que você fosse colocar a culpa no Hezbollah ou nos palestinos.
Para encerrar a semana :
Liberdade é o conjunto de leis que limitam nossas ações no meio em que vivemos.
Com essa, até segunda prô cêis que eu vou é pescar com minha família …
“Um dos grandes motivos da má distribuição de renda no Brasil é justamente a carga tributária.”
Isso! Já quando a carga tributária brasileira era muito menor, e as desigualdades sociais eram muito maiores, os culpados disso eram os marcianos, os esquimós e os membros masculinos da família real krã-nha-kã-koré.
Elias,
Quando entrei neste blog, não gostei de ti.
Aí comecei a gostar.
Agora você não sai da minha cabeça.
Estou apaixonado!
Elias tudibom :)
E nem adianta dizer que dispensa meu amor!
É uma decisão individual, unilateral, baseada no lívre-arbítrio a que tenho direito e não depende de reciprocidade.
Portanto, nada do que possas dizer ou fazer será capaz de mudar minha decisão de amá-lo incondicionalmente, e à revelia dos seus desejos.
Pode me xingar, que eu nem ligo.
Elias - Quando isso aconteceu?
Distribuição de renda através do Estado nunca funcionou em lugar nenhum! Pelo contrário, a única coisa que conseguiu foi “socializar” a pobreza. Cuba está aí que não deixa mentir…
Ou seja, mais vale um FGTS no meu bolso que nas mãos do governo.
Pablo esta altíssima carga tributária no Brasil, além de sustentar uma máquina de Estado incompetente e corrupta, serve para o que? fazer superavit primário? Para que? Para pagar o quê? Para pagar quem? os juros da dívida? quem está se beneficiando? alguma coisa a ver com as estratosféricas taxas de juros, as maiores do mundo? Quem são estes pobrezinhos? Alguém está ganhando muito além dos burocratas e políticos do “Estado”. Os interêsses que são atendidos não estão só na máquina ineficiente do Estado “brasileiro”, e a corrupação é via de mão dupla.
Beijos.
Liberdade éânuma segunda-feira qualquer,dizer adeus patrão!Se acaso de fome eu vier a morrer o problema é meu.Ter comida ou teto não tem nada a ver com liberdade,isso é conversa de comunista que deixou o trem passar.